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Crônicas
27/01/2005 - 09h10
CPMF: a culpa é minha
Moacyr Scliar - Agência Carta Maior
 

O Destino (mas podem incluir aí também espírito aventureiro, além de uma juvenil disposição para a militância política) me fez presenciar alguns dos momentos mais dramáticos da história recente do país. Menino ainda, eu estava no centro de Porto Alegre quando dos distúrbios que se seguiram ao suicídio de Vargas; estava próximo ao Palácio Piratini quando, no auge do Movimento da Legalidade, anunciou-se que os tanques iriam bombardeá-lo; e estava nas ruas quase desertas de Porto Alegre na manhã do golpe militar. Ah, sim; posso dizer também que assisti, ao menos em parte, ao nascimento da CPMF.

Aconteceu em Porto Alegre, durante uma visita do então ministro da Saúde, Adib Jatene. Notável cirurgião cardiovascular, homem decidido, Jatene desesperava-se com a crônica falta de verbas para a saúde. Contou então, a um grupo de médicos de saúde pública, entre os quais eu me encontrava, que uma fonte de financiamento específica estava sendo procurada para este fim; cogitava-se, por exemplo, de um imposto sobre refrigerantes.

Teríamos, então, de estimular a população a tomar Coca-Cola para assim arranjarmos dinheiro para vacinas e medicamentos? Foi o que eu pensei, mas não disse nada, porque no fundo estava meio cético em relação àquelas ponderações. Não deu outra: o imposto foi criado, mas não sobre refrigerantes, e sim sobre o cheque (afinal, é nos cheques que está o dinheiro). E a grana arrecadada não foi para a saúde: caiu na vala comum do Tesouro. Estas mudanças de rumo não são novidade na política econômica brasileira, feita à base de pacotes e medidas provisórias. Provisória era para ser a CPMF, como diz o P da sigla; depois ficou definitiva (dizem que pode terminar em 2007, mas será que terminará mesmo? O futuro a Deus pertence).

E se a idéia do imposto sobre refrigerante tivesse triunfado? Hoje, esses líquidos seriam muito mais caros (o que, do ponto de vista de saúde pública, não me parece de todo mau), mas a taxa não apareceria nas nossas contas bancárias. Será que eu não deveria ter defendido entusiasticamente a proposta? Será que não era aquele um desses momentos críticos da História em que uma opinião, mesmo insignificante, poderia ter sido decisiva?

Não sei, e agora é tarde para descobrir. O certo é que me omiti. Reconheço esta culpa. Uma a mais, entre tantas outras.

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