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Opinião
29/01/2005 - 11h24
José Nivaldo Cordeiro - MSM
 
 

Foi uma surpresa muito agradável para mim, ao retornar a leitura do I-Ching, o antigo livro de sabedoria chinesa, deparar-me com o seguinte trecho, no Hexagrama 10 (Lu):

"É impossível chegar a uma igualdade universal. Porém, o que importa é que as diferenças de nível na sociedade humana não sejam arbitrárias e injustas, pois nesse caso a inveja e a luta de classes se seguiriam inevitavelmente. Se, ao contrário, às diferenças de nível externo corresponderem diferenças de capacidade interna, e o valor interno for o critério para a determinação da hierarquia externa, a tranqüilidade reinará entre os homens e a sociedade encontrará ordem".

É bem verdade que a ilusão igualitarista não é monopólio da modernidade. O relato dos estudiosos da Grécia antiga, por exemplo, dão muitos exemplos da emergência da proposta populista do igualitarismo universal que evidentemente tiveram que ser abandonadas. Porém é verdade que essa obsessão é a doença da alma ocidental, transformada em plataforma política. A decadência do Ocidente é a ignorância dessa obviedade de que os homens nem são iguais e nem homogêneos.

Essa meditação do I-Ching é bem apropriada para o momento em que as coisas vocacionalmente de elite, como o ingresso no Instituto Rio Branco, têm seus critérios abrandados para "democratizar" o acesso, ao estipular como não eliminatório o domínio da língua inglesa. É evidente que isso é uma insensatez. Diplomatas têm no domínio dos idiomas a sua ferramenta de trabalho e o inglês é a língua falada por toda a gente, em especial no meio diplomático. A idéia de um diplomata monoglota é um absurdo, um desvio de finalidade, uma má alocação de talento que bem poderia estar desempenhando em sua área de vocação.

Da mesma forma, a proposta do Executivo para reformar o ensino superior cai na esparrela do igualitarismo arbitrário em um meio no qual a meritocracia deveria ser o único critério de acesso e de escolha de seus quadros. A administração do ambiente supostamente científico não deveria ser partilhada com aqueles alheios às ciências. É um democratismo medonho. Mais um sintoma de que essa doença do Ocidente encontra-se em estágio avançado por aqui.

A notícia de que o MST inaugurou sua escola, com a presença do ministro da Reforma Agrária, só reforça a minha impressão dessa doença de alma se alastrando. Uma escola cujo propósito é incitar ao crime e à desordem é o oposto de uma instituição de ensino. É um disparate. Isso não poderá ter um final feliz.

Claro, tudo isso coincidindo com a instalação, em Porto Alegre, do Fórum Social Mundial, a Meca dos disparates políticos, o ajuntamento sinistro de todos os decadentes que militam no mundo. Com o apoio ostensivo do governo, o que é pior. "Um outro mundo possível?" Se esse pessoal ao menos se desse ao trabalho de ler o I-Ching não declararia um disparate desses. O mundo é um só e o ser humano é o mesmo desde sempre. A alma não é de hoje. Isso sim é sabedoria antiga, uma lição que não deveria ser esquecida.


Nota do Editor: José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP.

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