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Crônicas
31/01/2005 - 15h29
O primeiro celular
Moacyr Scliar - Agência Carta Maior
 

O primeiro celular a gente não esquece, sobretudo quando esse aparelho entra em nossa vida por caminhos, digamos assim, transversos.

Faço parte, com Luis Fernando Verissimo, de dois movimentos, o MSN, Movimento dos Sem-Netos, e o MAC. Esta sigla ainda provoca calafrios em nossa geração. Na época da ditadura, designava o Movimento Anticomunista, um bando paramilitar que tinha como propósito liquidar a esquerda. O Verissimo, corajosamente, fazia charges mostrando o MAC como um rinoceronte sentado em cima de um pobre brasileiro. Esses tempos passaram, e MAC é hoje o Movimento Anticelular, formado por aqueles que, como o Verissimo e eu, resistem à avassaladora onda dos telefones móveis. Foi o Verissimo quem criou a sigla, e ele é altamente contagioso: contou numa crônica que, cada vez que senta no avião, tem de se certificar que aquela tramela da mesa está rigorosamente na vertical. Pois o mesmo passou a acontecer comigo: aderi compulsivamente aos Vigilantes da Tramela (VT) e também ao MAC.

A resistência ao celular, porém, tem limite, por mais que nos esforcemos por defender nossa privacidade. Mortificado, confesso aqui que acabei cedendo às injunções do chamado progresso. Na semana passada fui a Vitória, no Espírito Santo, levando na bagagem - pela primeira vez - um reluzente celular.

Pelo que paguei um vexame. Um dos organizadores da Bienal do Livro foi me apanhar no aeroporto. Enquanto rumávamos para o hotel, ele comentou:

- Engraçado, tenho a impressão de que estou ouvindo um celular chamando.

Eu já ia atribuir aquilo a um delírio dele quando me dei conta: era, sim, um celular - o celular que eu levava na bagagem. Isto é o que acontece quando novas tecnologias invadem nossa vida. Até nos acostumarmos, pagamos o maior vexame.

O que me lembra um incidente acontecido em Porto Alegre. Um médico foi até o centro da cidade de táxi e esqueceu no carro o seu bip, à época um dispositivo ainda raro. Pouco depois, o bip começou a soar. Quando o motorista viu aquela coisa, ficou em pânico. Uma multidão se juntou ali, e todos juravam que era uma bomba (por que razão alguém colocaria uma bomba no automóvel de um pobre taxista foi algo que ninguém se perguntou). Felizmente apareceu alguém que acalmou o pessoal, explicando que bip não é bomba (quanto a celular, não tenho tanta certeza).

Inovação tem disso. No tempo em que as pessoas se comunicavam por pombo-correio não havia dessas coisas. Obviamente surgiam outros problemas. Semana passada um pombo-correio que deveria ir de Londres a Paris, num torneio dessas aves, acabou pousando em Nova York. Bem, mas se celular pode tocar no cinema, pombo-correio pode pousar em lugar errado, não é mesmo?

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