|
"O que sempre fez do Estado um verdadeiro inferno foram justamente as
tentativas de torná-lo um paraíso." - (Hoelderlin)
Considero absolutamente normal a recente medida anunciada pelo governo de "democratizar" o acesso ao Itamaraty, retirando a exigência do inglês na prova de admissão dos diplomatas. Onde já se viu demandar o conhecimento dessa língua para profissionais que vão representar a nação no exterior e negociar com os governantes do mundo todo? Seria uma exigência puramente elitista, condenando os coitados que não aprenderam o inglês. Estender a oportunidade aos analfabetos é exemplo de dignidade e bom coração. Acho, entretanto, uma medida limitada, humilde. Por que privilegiar somente o cargo de diplomata? Por isso que venho defender a ampliação de projeto tão popular e nobre. Pretendo democratizar não apenas o Itamaraty, mas o Brasil. Acho que não existe razão lógica alguma para se exigir que um médico saiba medicina. Muito elitista isso. E se existe lógica, bem, quem liga para a lógica atualmente? O processo de seleção para juízes também me parece deveras elitista. Como apedeutas terão alguma chance de competir? E sem essa de que juiz não pode ser despreparado, pois afinal, até o presidente pode! Noto também extremo elitismo esnobe no setor de construção civil desse país. Já repararam como somente engenheiros tocam obras? Por que um peão não pode cuidar do planejamento todo da obra? Cobrar conhecimento de detalhes em engenharia me parece apenas um mecanismo de barrar a democratização verdadeira nesse ramo da economia, não dando espaço para os mais ignorantes. O conhecimento nunca foi importante mesmo. Basta observar a capacidade intelectual justo daqueles que transmitem o conhecimento, nossos professores. A maioria "ensina" que o "neoliberalismo" causou nossos males. Vamos dar uma chance aos mentecaptos! Este já poderia ser inclusive o slogan desse mega-projeto social. Chega de desigualdades! Para entrar em uma universidade, já basta a cor da pele ou a conta bancária baixa. Para arrumar emprego, uma carteirinha do PT já é suficiente. Para tornar-se um diplomata, o primeiro grau completo será mais que satisfatório, seguindo o rumo atual. Para defensor dos direitos humanos na ONU, ser um ditador cruel e assassino já é uma exigência básica. Contradição é a nova palavra sagrada! Para ganhar uma mega reserva rica em minerais, ser índio é suficiente, mesmo que bem adaptado aos costumes materialistas do Ocidente. E por fim, para presidente, não é necessário mais do que uns poucos anos de trabalho, seguidos por muito discurso retórico e bravata. Embasamento, esforço, meritocracia, determinação, honestidade e capacidade são conceitos ultrapassados, de um mundo distante e elitista. Chegou a vez dos incompetentes. Está mais que na hora da lógica ceder espaço à boa intenção. Temos que trocar o esforço individualista por algo mais nobre, como o "desejo coletivo". A meritocracia justa é muito cruel, e precisa ser substituída pela igualdade compulsória. Podemos criar um mundo perfeito, onde cada um contribui com o que pode e o outro retira o que precisa, bem na cartilha socialista. Definir quanto cada um pode e o que cada um precisa pode dar algum trabalho, claro, mas nada que uns poucos burocratas iluminados e poderosos não possam solucionar. Quem discordar dos parâmetros, é um elitista egoísta, e merece ser penalizado. Que mal há em escravizar uns poucos egoístas? Seguindo essas recomendações básicas, estaremos finalmente criando um nivelamento democrático, onde todos serão aproximadamente iguais. Bem, uns serão mais iguais que os outros, é verdade. Mas e daí? Contanto que você esteja do lado certo, com as conexões certas, você estará bem. E nesse momento, tudo será lindo, pois você não terá mais que estudar, aprender, se esforçar, arriscar, trabalhar e competir. Algum otário fará isso tudo por você, enquanto você vive dos impostos dele. E tem a chance ainda dele ser tão otário que nem reclamará, pagando os impostos ao mesmo tempo que pede mais Estado, justiça social, e controle rígido do governo em cima dos "exploradores", os empresários. Os otários vão pagar a conta direto do Fórum Social Mundial. Mas não vamos divulgar muito isso, pois eles podem acordar e o mundo então iria sofrer uma escassez de otários. Nesse caso, quem iria nos sustentar? Acham isso um pouco imoral? Mas a moralidade também está fora de moda, tendo sido substituída pelo belo relativismo. Não há mais absolutos. Isso é coisa de um mundo maniqueísta. Nesse mundo, ninguém é dono da verdade, e fatos não existem, apenas interpretações deles. Quem vai definir o que é correto ou justo? Não é isso que nossos intelectuais ensinam? Pois bem, estou apenas aplicando o "senso comum". O mundo é dos espertos, mas o código hipócrita oculto deles não permite chamar as coisas pelos seus nomes reais. Então vou aderir ao método politicamente correto: nivelamento democrático, já! Afinal, um novo mundo é possível... Nota do Editor: Rodrigo Constantino é economista pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha no mercado financeiro desde 1997. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.
|