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Opinião
05/02/2005 - 11h41
Política externa de risco
Ipojuca Pontes - MSM
 
"Diplomacia é fazer e dizer as coisas mais sujas da maneira mais gentil" - Isaac Goldberg, editor

Ao contrário do que se proclama entre os áulicos do governo, os negócios externos brasileiros nunca estiveram tão emperrados quanto agora. Um breve olhar sobre a atuação do Ministério das Relações Exteriores demonstra claramente que a diplomacia oficial, exercitada pelos desvãos do mais puro sectarismo (marxista-leninista), tornou-se uma espécie de ferrolho suíço a entravar as portas de expansão do nosso comércio com os demais paises e blocos que formam o mercado mundial (salvo a China, assunto que abordaremos depois).

Deixando de lado a exclusão do inglês das provas eliminatórias no Instituto Rio Branco (para o respectivo ingresso na atividade diplomática), veja-se o caso das negociações relativas à criação de livre comércio com a União Européia, por exemplo. Desde o ano passado, em que pesem as "conversas de alto nível", sustentadas em dólares e pagas com o suor do contribuinte, nenhum acordo foi estabelecido e sequer um roteiro para transpor o impasse foi claramente definido. Os europeus, velhos colonizadores, temendo os prejuízos da liberalização comercial em termos de renda e emprego internos, afirmam que a oferta apresentada pelos representantes do Mercosul, além de fraca, basicamente impede o comércio da Europa nos setores de serviços e compras governamentais, para eles, os mais atraentes. "Vamos perder 23% de oferta dos nossos empregos a troco de quê?" - aventou o Sr Peter Mendelson, o implacável comissário europeu para comércio externo.

Já o Mercosul, por sua vez, tendo a frente o Itamaraty, considera que a proposta da UE para a abertura de seus mercados agrícolas é mais do que insuficiente. (Só para dar tratos a bola: os franceses - para Voltaire, "uns marotos" - abominam a idéia de abolir os subsídios agropecuários, visto que uma vaca nos campos da Normandia, para ajudar a produzir 246 espécies diferentes de queijo, ganha mais benefícios do que qualquer trabalhador latino-americano).

Como demonstra o noticiário, o próprio Mercosul tornou-se uma complicada "cabeça-de-porco", espaço comercial improvável, duro de entrar e pior ainda de sair. Com o exercício da diplomacia "ativa" do Itamaraty, que faz do acordo regional um biombo para o mais defasado antiamericanismo, o comércio entre o Brasil e a Argentina (os principais países do bloco) parece confirmar o preceito de Chu Em-Lai, inverso ao de Clausewitz, para quem "a diplomacia é apenas a continuação da guerra por outros meios".

Com respeito à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a última informação pertinente, de 2004, apontava, segundo o chanceler Amorim, para uma retomada de negociações dentro de restrito "formato à la carte", o que nos faz acreditar que a nossa diplomacia voltou à fase de jantares e coquetéis que se imaginava para todo o sempre enterrada.

O fato concreto no que tange ao diálogo com os Estados Unidos é que regredimos ao "pragmatismo responsável" da Era Geisel, quando a retórica embasada na afirmação de uma política externa "independente" não escondia, para qualquer observador, o notório antiamericanismo embutido na legenda "Blame America first" ("Culpe a América em primeiro lugar") - a marca de uma diplomacia hostil que colide de forma sistemática com a proposta de criação da Alca no espaço continental, a pretexto de se impor formalidades que fazem do estreito e problemático Mercosul um obstáculo intransponível para o necessário acordo.

De fato, subestimando nosso melhor parceiro comercial, os EUA, cuja balança pesa sempre em nosso favor, a diplomacia sectária deprecia a única possibilidade à vista de pactuar acordo capaz de mobilizar a economia de área que soma 800 milhões de pessoas e um PIB que chega a casa dos US$ 12 trilhões. Na diligência firme de se procrastinar a criação da Alca, basta assinalar que um dos negociadores escalados pelo MRE para tratar das conversações, no pleno exercício da diplomacia de guerra, classificou-a alto e bom som como uma "odalisca de cabaré barato".

Dir-se-á que o quadro interno do País, ao protelar a Alca, é de plena prosperidade; que os recursos para investimentos tecnológicos e de infra-estrutura estão garantidos e que a massa trabalhadora se regozija no pleno emprego - para não falar que a fome, como quer o atual presidente, foi reduzida ao patamar zero e que, afinal, atravessamos um cotidiano de paz e amor.

Mas dá-se exatamente o oposto. Como exemplo, vale mencionar aqui o informe da World Economic Forum, órgão de avaliação da economia mundial sediado em Genebra, Suíça, em que o Brasil aparece, no universo de 104 nações, como um país que perdeu em competitividade e credibilidade: caindo de 45ª para 57ª posição, evidenciou-se para o mundo que o país, por força de fatores negativos, entre eles o excesso de burocracia e elevada carga tributária, não está a merecer crédito para os investimentos externos.

No mesmo diapasão, boletim técnico do IBGE voltado para análise dos indicadores econômicos, dá conta de que as taxas de investimentos registradas no Brasil estão, nos últimos anos, "aquém do necessário para garantir um desenvolvimento com sustentabilidade". Em números reais, a taxa de investimentos, que era baixa, caiu de 18,42% (percentual do PIB), em 2000, para 18,04%, 2003. O parecer dos analistas é de que "é preciso de uma taxa de investimento de pelo menos 25% para garantir um crescimento sustentável nos próximos anos".

Ademais, por causa das regras hostis ao capital externo, os investimentos estrangeiros despencaram de US$ 32 bilhões, em 2000, para US$ 10 bilhões, em 2004, com tendência para redução maior nos próximos anos. Em decorrência do escasso investimento interno, tanto público quanto privado, está-se patinando na estagnação, para não falar em retrocesso. Beira ao masoquismo desfilar dados estatísticos alarmantes, mas a simples constatação de que o Brasil soma 47 milhões de miseráveis e 57 milhões de pobres, por si mesmo revela a dimensão do abismo.

Curiosamente, com o Mercosul "em construção" e o eterno adiamento das negociações de comércio com a União Européia, o que não pára de crescer são os gastos do governo com viagens (e diárias) internas e externas. Segundo o Siafi, o sistema de acompanhamento de gastos do governo, em menos de 10 meses o Planalto já gastou mais de R$ 760 milhões com o vaivém dos burocratas.

Se juntarmos a isso, para efeito de contabilidade, as despesas bilionárias com o AeroLula, o perdão de US$ milhões da dívida de países da África e da América do Sul, os empréstimos do BNDES a Cuba, Venezuela e a Argentina, para não falar no problemático envio de tropas ao Haiti, considerado um "buraco negro", se verá, afinal, que no campo da política externa, ao contrário do que afirma o pensamento "politicamente correto", a nave Brasil esta à deriva.

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