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COLUNISTA
Sayonara Lino
18/08/2012 - 15h00
A aparente monotonia de nossas vidas
 
 

Acabei de chegar da rua, tomei café com alguns amigos, até que foi bom. Você ainda está aí do outro lado, parece que mal se moveu. A impressão que tenho é que consegue ficar na mesma posição durante horas.

A cabeça sempre baixa, um cigarro atrás do outro, o olhar distante. Pode ser que seja simplesmente uma pessoa pacata, mas cá para nós, arrisco que não é apenas por conta de seu temperamento.

A mulher sempre ao seu lado, aconselhando, oferecendo apoio. Ela parece bem ativa, outro dia escutei até alguns gritos dela quando falava na sacada com aquele telefone sem fio. Parecia contrariada, pedia providências urgentes para algo que minha imaginação não alcança. O conteúdo das conversas alheias não me interessa, apenas observo.

Daqui dá para ver a sala pouco mobiliada, tudo muito aconchegante. Aquele abajur bem no cantinho, em cima da mesa muito me agrada. Eu gostaria de morar uns tempos aí, já pensou se topassem uma troca de casas por alguns meses? Seria uma boa experiência. Pode até quebrar a aparente monotonia de nossas vidas.

Tão raro hoje em dia ver um casal assim, aparentemente tão unido. E mais difícil ainda essa contemplação periódica que acontece ali, naquela sacada.

Gosto de vê-los porque sinto que ainda há quem viva sem pressa, ou de uma forma menos alucinada. Também me agrada a idéia de que ali existe cumplicidade, profundidade, valores que muitos consideram ultrapassados na existência líquida que os tempos modernos insistem em nos impor.

Toda vez que escrevo sobre algo que me captura, me sinto ultrapassada e fora de contexto. É porque sempre está relacionado a comportamentos que prezo e que parecem cada vez mais distantes. De qualquer forma, os vizinhos do outro lado estão ali, acenando com o velho e bom hábito da parceria, da cumplicidade.


Nota do Editor: Sayonara Lino é jornalista, com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora e atualmente finaliza nova especialização em Televisão, Cinema e Mídias Digitais, pela mesma instituição. É colunista do Literário e também do Sorocult.com.
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