|
Todo homem está duas doses abaixo do normal - Sir Winston Churchil.
Um teatrinho amador, vagabundo. Cortinas abertas, o cenário é uma casinha pobre, vulnerável, perdida no meio da mata. Cinco personagens, "doutores" sexagenários: o Dr. Sóbrio, o duas doses / Dr. Macaco, o quatro doses / Dr. Leão, o oito doses / Dr. Porco bêbado. Ah, e um tal de Juó, também. O Sóbrio - Ô caramba! Assim não dá! Já encheu, rapaz! Chega! Perereca agasalhada no meu cobertor; perereca dentro da panela de arroz; perereca mergulhada no vaso sanitário no momento intestinal mais agudo; aranha... dez centímetros de peçonha atrás do filtro; morcego comendo barata, largando restos e excrementos na minha escova de dente; aquela cobra - lindinha não é? - bem no meio da sala; borrachudo filho-da-puta, vai picar tua mãe, desgraçado; pernilongo, mutuca; limpar a casa, lavar roupa, fazer comida, lavar panelas e talheres... virei doméstica, porra; cinco dias chovendo sem parar, isto é um charco, começo a coaxar; mofo, umidade; de repente, este sol de rachar mamona, suando em bicas sentado, imóvel; mosquito boiando no copo de uísque; o João-preguiçoso que esmaguei, estúpido, com o chinelo - ô que fedô largou! João-fedentina-diabólica... Catso qu’eu tô fazeno aqui, droga! Um susto após outro - tensão, adrenalina, hipertensão. Vermelho. Alerta vermelho! Tire-nos daqui em dobra oito, Sr. Spock! O Macaco: Ora, Dr. Sóbrio, rapaz! Penso que você só está vendo a bosta do cachorro, que coisa! Olha aquelas manchas branco-maravilha no tronco escuro da jaqueira; e o tamanho das jacas, hein? Os cachorros brincando; o Cirilo melhorando a pinguela só pra facilitar nossa vida; esta brisa suave agora, perfumada, nenhum mosquito; estas flores vermelho-escândalo, beija-flor flutuando sugando-doce; e o tié-sangue, hein? O murmúrio calmante desta água corrente gelada, cristalina, energizante; o canto do galo... lá longe; a praia particular que o rio criou só para nós; esta árvore estranha que mija; ô... tá ouvindo? Crianças felizes brincando na água fria; esta borboleta branca, enorme... lembra? Voa / minha linda borboleta / voa / procurando... Ouviu o sino da capela? Pois é! Porque hoje é Domingo, pé de cachimbo, cachimbo é de barro, jarro é de ouro, touro é valente... aquela imensa folha de bananeira, lembra o Juó? Os passarinhos, a pomba do bando cantando longe seu canto que ouvimos desde crianças, maravilhados... O meia-dose: não é mesmo Dr. Macaco? Eu acrescentaria... O Leão (valentão, debochado, irônico...): Quer saber, Sóbrio? Cê não passa de um cagão, rapaz! Cobra? Uma paulada certeira, firme, decidida; perereca? Um tapa na bunda dela. Aranha? Uma boa chinelada. Ah! A máquina digital que eu sugeri você não comprou. Cara demais? Que pena! As fotos maravilhosas que levaríamos daqui! Pô, além de galinha... sovina, pão-duro! Virei doméstica? Tá vendo o tamanho da tua soberba? Ora, cê tá histérico, tá parecendo bicha, seu bosta! O meia-dose: Dr. Leão, por favor, não se exalte... O Juó (Quem? Como é que esse cara entrou aqui, hein?) Ruperto, ô Ruperto (Ruperto? Quem é?)! Io parlo sempre que vucê nõ bate bê us corno. Laschia qüesto matagale colósso, zuberante, prus gaizzara qui o naschiuto qüi... i andiámo lá nu Bó Ritiro: té us chiopignio gelato, qüelas bunita intaliana, tuttas profumata, frésca, bela... gabêlos gor di banana... eh? O meia-dose: Mas Dr. Juó, isso foi em 1930, acha que... será? O Porco: Cês qué pará quesse papo furado? Tão quereno fazê exartação da cachaça, é? Olha bem pra mim, sô, num tá veno a chaga viva mardita pra sempre qu’eu virei? Ô Leão! Tua soberba é muito maió que o Sóbrio! Te manca, rapaiz! Tu é pirigoso dimais, divia di tá preso numa jaula. Tá esquecido? Foi ocê mais eu que capotemo aquele fusca, porra! Ara, cala boca sô merda! Eu quero durmí... durmí pra sempre... acordá nunca mais! O meia-dose: Ah, Dr. Porco, precisa esquecer, foi um acidente... O Juó (enxugando lágrima): Signore Zóbrio, scuse, ma non’é cuntento qüi? Intó, amunta qüela tua máchina méricana vécchia i ferugiata - perchè nó Uno Fiat? traditore! - i vá via la n’Ubaduba ballare, bere. É carnavale... abrachia i bégia tuttos qüelo durosta qui vucê dimira tanto. Dopo... Todos (Coro final, molto maestoso): turosta? É mermo! Tá cheio de turosta! Grande Juó! Mosquito, perereca, jararaca? Que venham as jaguatiricas, onças, crocodilos, tiranossauros... O macaco beijou a perereca, ela se transformou na Sophia Loren... na Lolobrigida, na Kim Novak, na Silvana Mangano, na Liz Taylor, na Brigite, na ... E foram todos dormir o sono justo (?) dos conformados. Menos o Juó, que se mandou pro Bom Retiro. Com a Sophia, claro! *** A verdadeira história da droga ainda não foi escrita. Aqui pra nós - tem coisa mais feia e nojenta que morcego comendo barata? Cê contou seis personagens? Ah, esse meia-dose vale porcaria nenhuma. Larga mão. Larga mão também desta grôniga. Bah!
|