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Crônicas
13/02/2005 - 11h10
As lembranças do racismo
Moacyr Scliar - Agência Carta Maior
 

Johannesburgo - Uma viagem que não nos ensina alguma coisa não vale o deslocamento. Uma viagem à África do Sul ensina uma grande lição sobre racismo e intolerância. Na cidade de Pretória, a capital, existe um gigantesco monumento aos "voortrekers", os colonos holandeses que a partir de 1652 começaram a ocupar o território que depois seria a África do Sul. Uma série de painéis em alto-relevo ilustra os inevitáveis choques entre os colonos e os habitantes da região, zulus, xhosa e outros. A fisionomia dos brancos mostra serenidade e coragem; na dos negros, que em alguns painéis estão matando mulheres e crianças, o ódio é visível. O certo é que os brancos, que nunca ultrapassaram 20% da população total, tornaram-se hegemônicos. Os negros estavam sujeitos a controle policial e muitas vezes foram confinados em regiões específicas, Soweto - que é um gigantesco bairro de Johannesburgo - sendo a mais conhecida. As pessoas que não tinham passe válido podiam ir para a cadeia; e a prisão de Constitution Hill, hoje aberta ao público, mostra as sombrias condições em que viviam os prisioneiros negros (os brancos pelo menos tinham algum privilégio).

Em Soweto começou a rebelião que derrubaria o apartheid, rebelião que foi motivada pela obrigatoriedade do ensino em afrikaans, um dialeto do holandês que é um dos idiomas oficiais. Soweto, onde existe um pequeno museu lembrando esses acontecimentos, é um lugar de visita obrigatória. Em algumas partes, as casas são razoavelmente confortáveis; mas a maioria da população vive em tugúrios miseráveis. Durante boa parte de minha carreira de médico trabalhei nas vilas populares da Região Metropolitana; atender pessoas nos seus precários domicílios era rotina. Mas devo dizer que a miséria de Soweto é dolorosa. Não há luz, não há água encanada; numa choupana de uns 10 metros quadrados que visitamos, morava uma família de seis pessoas. Oitenta por cento da população está desempregada.

A igualdade política e legal foi conseguida, e isto foi um triunfo suficiente para imortalizar o nome de Nelson Mandela, autor de uma frase lapidar: "Uma nação não deve ser julgada pela situação dos cidadãos mais importantes e afluentes; uma nação deve ser julgada pela maneira como trata as pessoas mais humildes". O próximo passo é a diminuição da desigualdade econômica. O que, lentamente, está sendo conseguido. A renda per capita dos negros, que era baixíssima, aumentou, e já existe uma classe média negra capaz até de aumentar as vendas de automóveis. Só que a melhora é muito lenta. E a pobreza já não pode esperar, não se resigna mais a esperar. Esta foi a lição que a África do Sul ensinou ao mundo.

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