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Crônicas
22/02/2005 - 06h21
Arte na butique
Ronaldo Coelho Teixeira - Agência Carta Maior
 

O enigma cultural continua devorando artistas das mais diversas áreas. Em pleno Século XXI, a antiga e onipresente charada da esfinge denominada Cultura ainda não foi decifrada.

Isso acontece porque nossos artistas (a maioria!) estão omissos, enquanto os pseudo-artistas tomam conta da ribalta e a pirataria grassa lado a lado com a elitização da arte.

Não nos esqueçamos que Cultura é o conjunto dos costumes e manifestações de um povo, ou seja, todos os valores mantidos ou que, criados, passam a ser vividos como bem comum. É o que o danado do sabido do Câmara Cascudo chamava de sabedoria oral da memória coletiva.

Como o programa da nossa era parece ser a destruição do passado e os que ignoram este - não se enganem! - estão condenados a repeti-lo, seguimos repetidos repetidores alienados dessa memória. Primeiramente, porque fomos colônia portuguesa (todo o ouro para a Coroa!). Depois, européia (laissez-faire, laissez-passer!). E agora, americana (the american way of life!).

Hoje, o sistema vigente pega uma manifestação popular, dá-lhe um banho de loja e a coloca nas vitrines das butiques da moda. Mas com um valor tão alto que apenas uma minoria privilegiada pode ter acesso a esse bem cultural.

Se o ato criativo é individual, acima de poderes e impérios, necessita ficar longe da interferência do Estado. A Cultura, não. Por ser esta um fator de identidade, de riqueza e de patrimônio de uma nação é, então, questão política, ou seja, de Estado. Porque um povo sem identidade não tem auto-estima e, sem esta, é alvo fácil de culturas fortes, política, econômica e socialmente.

Assim, com a arte na butique e as manifestações populares minimizadas, pirateadas ou em guetos, entende-se porque o genial Plínio Marcos dizia que Cultura nas mãos dos poderosos constrange mais do que armas. E dá pra entender também porque o emblema cultural da nossa elite é a Disneylândia.

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