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Referindo-se à derrota sofrida pelo governo na eleição para a presidência da Câmara, o presidente Lula afirmou, com ar de pai preocupado que encontra uma trouxinha de maconha na mochila do filho adolescente, que "uma cultura foi quebrada". Desta vez, adotou o papel nº 3 ou nº 4, o de vítima, a que recorre quando não lhe convém nenhum dos outros (papel nº 1: Deus; nº 2: professor levemente impaciente; nº 3: companheiro de futebol e de churrasco; nº 4... - o rol parece não ter fim). O pai generoso, de coração aberto, foi traído, mais uma vez, por inimigos insidiosos. Que país é este, doutor Francelino, em que os adversários políticos não respeitam o princípio da proporcionalidade? "As elite" não conseguem engolir a presença de um operário na presidência da República! Quanto papel inútil a Cepal gastou tentando explicar o subdesenvolvimento... Deixando de lado o terreno preferido do petismo, a farsa, diga-se o que todos já disseram: Lula é o menos indicado para lamentar a quebra de "culturas", ou seja, de tradições, sobretudo se essas tradições dizem respeito à República. Afinal, as tradições republicanas não passam, "como todos sabem", de cristalizações, no terreno da lei e dos costumes, do exercício do poder pelas classes dominantes. Um partido que revolucionário não pode, obviamente, respeitar tradições, a não ser aquelas que, de acordo com o partido revolucionário, são "boas", convêm à luta... contra as tradições! (Observe-se, entre parênteses, que essa é provavelmente a da "teoria da revolução permanente": as sociedades precisam de regras e tradições para funcionar. A idéia de revolução permanente é estranha ao psiquismo humano. No caso, diante da impossibilidade prática de se viver numa sociedade em que as regras de ontem já não valem hoje, "alguém" terá que restabelecer o bom-senso, ou seja, afirmar que se trata, na verdade, de suprimir algumas tradições (só as "ruins"), não todas. Quem definirá que tradições suprimir e quais conservar? O partido-príncipe, of course, pois só ele detém a "visão total do processo". Assim, enquanto nas câmaras secretas do Comitê Central se discute o que convém e o que não convém ao "processo revolucionário", embaixo, entre os cidadãos, reina a mais brutal insegurança, pois ninguém - exceto o partido-príncipe - saberá que leis estarão em vigor amanhã, quem será excluído do rol dos amigos e quem será incluído no rol dos inimigos da "revolução". Incapazes de fazer as mais banais previsões, inclusive sobre seu futuro pessoal, os cidadãos são reduzidos à mais absoluta impotência - psíquica e política. Contra o pano de fundo dessa impotência destaca-se a figura do partido todo-poderoso. Exatamente o que aconteceu e ainda acontece em todos os países que fizeram a "revolução socialista"). Como, no entanto, têm observado uns pouquíssimos jornalistas politicamente alfabetizados, não há paradoxo algum em Lula exigir que os adversários observem princípios que ele mesmo nunca respeitou. Lula - tal como o PT - considera-se acima do processo político "normal", esse toma-lá-dá-cá-entre-cidadãos-movidos-por-interesses em que consiste, aqui e alhures, a tal democracia. Nosso presidente imagina-se parte (e demiurgo) de um "outro" processo político, mais alto, de objetivos infinitamente superiores, destinado a implantar na Terra não esta ou aquela melhoria, mas a Justiça Social, a Igualdade, as Três Refeições Diárias etc. etc. Como um agente predestinado do Bem aceitaria ser julgado pelos representantes do Mal? Quando triunfa aquilo que os príncipes da imprensa chamam de "baixo clero", é hora de se perguntar: a quem representam esses trezentos? Ao "baixo povo"? Quando vota maciçamente em Lula, esse povo é sábio, dá exemplos para o mundo. Quando elege trezentos cidadãos exatamente iguais a ele, prova-se indigno do amor do Príncipe e dos seus cortesãos. Não será, por acaso, o mesmo povo, com seus mesmos gostos e preconceitos, o que deu maioria a Lula e elegeu a maioria da Câmara? Brecht, stalinista durante toda a vida, um pouco antes de morrer teve a dignidade de produzir esta poesia (que cito de memória), a propósito das greves que abalaram o governo comunista de Berlim em 1953: "O governo declarou que, nos acontecimentos recentes, o povo não se mostrou digno de sua confiança. Não seria justo que, nessas circunstâncias, o governo trocasse de povo?" Os petistas gostam dessa idéia. Para nossa sorte, até agora, o povo não gosta.
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