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Crônicas
23/02/2005 - 17h46
De um diário moçambicano
Moacyr Scliar - Agência Carta Maior
 

Maputo, a pitoresca capital de Moçambique, tem uma avenida Karl Marx, uma avenida Mao Tsé-tung, uma rua Friedrich Engels e outras homenageando grandes revolucionários. Só que várias dessas ruas são uma sucessão de buracos, o que é muito significativo para países que, como Moçambique, viram no comunismo a esperança para o fim da miséria e da injustiça. No caso moçambicano, foi uma longa luta; com o fim do regime colonial português, começou a sangrenta guerra civil entre a marxista Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e seus inimigos direitistas da Renamo. A Frelimo venceu e viu-se diante do desafio da pobreza, da ignorância e da doença - Moçambique, devastado pela desnutrição, pela Aids, pela malária, está entre os oito países mais pobres do mundo. É pobre mesmo comparado a outros países da região, como se constata na viagem de Maputo ao Parque Kruger, uma imensa reserva ambiental sul-africana. A fronteira entre os dois países lembra a fronteira entre México e Estados Unidos; o lado sul-africano é muito mais rico e organizado.

No mundo pós-comunismo, a receita comum para a atração de capital sem abertura econômica; e assim, mesmo nas vias públicas que homenageiam os líderes da esquerda mundial, os outdoors fazem propaganda de celulares, de uísque, de bancos multinacionais. E a verdade é que Moçambique está crescendo a taxas superiores a 10% ao ano (e arrumando as ruas da capital, a propósito). O país teve, recentemente, eleições democráticas; quando lá chegamos havia sido empossado, com grandes festas, o presidente Armando Guebuza.

A África tem de se desenvolver e se desenvolver democraticamente. O primeiro passo para isso é exorcizar um passado que, de um lado, conduziu à escravidão e ao apartheid e, de outro, resultou em ditaduras nacionalistas e/ou comunistas. Como diz o grande escritor moçambicano Mia Couto, não adianta culpar outros pelos fracassos; o que se faz necessário é uma visão objetiva da realidade. Dar nomes históricos às ruas é muito bonito, mas consertar os buracos - e arranjar comida e remédio - é mais importante.

* * *

Quando me tornei professor assistente da Faculdade Federal de Ciências Médicas, fui recebido com gentileza e generosidade pelo falecido professor Ernani Camargo, veterano sanitarista. Com não menor gentileza e generosidade recebeu-nos em Moçambique a sua filha, a embaixadora Leda Lucia Camargo, a quem devo também o contato com o embaixador Lucio Amorim, oportunizando minha visita à África do Sul e a conferência na Unisa, University of South Africa. Leda Lucia, para nosso orgulho, é gaúcha - e uma grande representante do Brasil no continente africano.

* * *

Falando em embaixadora, fui apresentado à embaixadora de Israel no Brasil. Tzipora Rimon está bem sintonizada com o novo processo de paz que se inicia no Oriente Médio. Suas declarações para a imprensa brasileira são de esperança. Esperança que todos partilhamos.

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