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Opinião
28/02/2005 - 15h31
Sociedade violenta
Pedro J. Bondaczuk
 

O brasileiro é uma pessoa alegre, que sabe viver a vida, fanático, religioso e corrupto. É certa esta avaliação? Até certo ponto, sim. Isto, pelo menos, é o que pensam de nós nossos irmãos da América Latina, de acordo com uma pesquisa do instituto Research International Brasil, feita há já alguns anos, mas que não mudou muito, no seu aspecto essencial.

Três mil e quinhentas e quinze pessoas de grandes cidades de nove países latino-americanos emitiram sua opinião para se chegar a esse resultado. A consulta apenas reforçou um estereótipo a nosso respeito. O fato de acharem que somos assim não quer dizer que o sejamos. Até porque, se partiu para as generalizações que, como já dizia Nelson Rodrigues, "são burras".

Faltou, no entanto, um ingrediente para compor o perfil do brasileiro médio: a violência (que descamba para a fúria) de que ele é dotado. O País é um dos líderes mundiais de homicídios, de acordo com estudo feito pelo pesquisador francês Jean-Claude Chesnais, diretor do Institute National D’Études Demographiques de Paris. Supera, nesse aspecto (em termos proporcionais), e em muito, os Estados Unidos, cuja sociedade é tida e havida como uma das mais violentas do mundo. No Brasil, em média, 45 mil pessoas (jovens, na sua grande maioria) morrem assassinadas por ano. As cifras variam ora para cima, ora para baixo. Mas giram ao redor desse número assustador.

É preocupante e desfaz o mito do "brasileiro cordial" criado a nosso respeito interna e externamente. Conclui-se que num espaço de quase 700 dias, são mortos no País tantos indivíduos quantos os soldados que os norte-americanos perderam em 13 anos de guerra no Vietnã. Diante destes dados, o conflito no Iraque é quase que um brinquedo de criança.

O número de homicídios no Brasil é simplesmente mais do que o dobro do dos Estados Unidos, que têm uma população 50% maior do que a nossa. As causas de tamanha violência são muitas, mas o alcoolismo e os narcóticos têm muito a ver com tanta brutalidade.

Por exemplo, Chesnais concluiu que na periferia de São Paulo, área violentíssima à qual se dá pouca importância, 60% das mortes são provocadas por envolvimento com drogas. São cada vez mais freqüentes as chacinas, a maioria insolúvel e, portanto, impune. Daí ser necessário, e indispensável, a sociedade se rebelar contra esse estado de coisas. Agir preventiva e profilaticamente. Esmerar-se na educação, educando as novas gerações para a vida, e não, como se faz agora, para a morte, para a estúpida valentia, para o falso heroísmo, para o machismo distorcido (até porque as mulheres também matam e não são apenas vítimas).

A taxa nos Estados Unidos é de dez assassinatos para um grupo de 100 mil habitantes. É exorbitante e absurda. É dez vezes maior do que a de outros países desenvolvidos da Europa Ocidental, como França, Alemanha e Reino Unido e do Extremo Oriente, como Japão e Coréia do Sul.

Esses números, no entanto, são superados amplamente pelo Brasil. Nesse aspecto, superamos em muito os outros povos da América Latina, inclusive o México, ficando ligeiramente abaixo da Colômbia. Mas o índice de assassinatos brasileiro é quatro vezes superior ao da Argentina.

O citado estudo avalia somente os casos extremos de violência. Há, contudo, milhões de situações que não redundam em morte, mas resultam em graves lesões, físicas e psicológicas, para as vítimas. O Brasil, por exemplo, é apontado como um dos países onde ocorrem mais agressões contra as mulheres. É uma lástima!
Como se vê, o povo não é tão alegre, tão bonachão e tão cordial como supõem nossos irmãos latino-americanos. Pelo contrário. São aspectos que não devem ser escondidos ou omitidos, mas tratados de maneira clara e bastante séria pelos meios de comunicação.

Recorde-se que Darcy Ribeiro, no seu clássico "O Povo Brasileiro", classificou nosso país de "máquina de moer gente". Justifica apontando estimativas de que, no nosso processo de formação, foram dizimados, por baixo, por baixo, cinco milhões de negros e o mesmo tanto de índios. Como se vê, a violência é fenômeno recorrente no Brasil. Não é problema atual, mas data do nosso descobrimento. Romances famosos, como "Memórias de um sargento de milícia", de Manuel Antonio de Almeida (que era médico), "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo e vários contos de Machado de Assis mostram como o Rio de Janeiro já era perigoso, nos séculos XVIII e XIX. Nosso povo, portanto, nunca foi dos mais cordiais. Os frios números mostram isso "ad náusea".

Hoje, em cidades brasileiras - grandes, médias ou pequenas, não importa - qualquer cidadão pacato, avesso à violência, pode ser enredado em alguma circunstância em que acabe por se tornar homicida ou, o que é pior, vítima. As providências para ao menos reduzir as ocorrências não devem e não podem se limitar aos aspectos policial e judiciário, ou seja, depois do crime consumado. É necessária uma ação profilática. É indispensável uma atitude preventiva. Até porque, a despeito de se tratar de um clichê, é sumamente sábia, posto que óbvia, a afirmação de que "prevenir é melhor do que remediar".


Nota do Editor: Pedro J. Bondaczuk é jornalista e escritor.

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