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Na época de nossas avós, as mulheres só procuravam o "médico de senhoras" quando surgia algum problema grave, ou quando tinham seu primeiro filho. Havia alguns tabus entre as mulheres que evitavam expor seus problemas íntimos. Felizmente, hoje, esse preconceito caiu por terra e muitas doenças femininas são precocemente diagnosticadas e tratadas graças à procura cada vez mais cedo por médicos como a Dra. Daniela S. Castelotti, que é especialista em cuidar de problemas ginecológicos de crianças e adolescentes. Segundo a médica, teoricamente não existe idade predeterminada para a primeira consulta. O importante é que a garota preste atenção nas alterações que acontecem em seu corpo e vá ao consultório quando surgirem dúvidas, alterações ou quando iniciar a vida sexual. No último caso, a consulta é fundamental para receber orientações sobre doenças sexualmente transmissíveis (DST) e evitar uma gravidez indesejada. O mais comum é a mãe levar a filha quando ela menstrua para saber se está tudo "normal", porém o ideal é que a vontade parta da própria menina. Na primeira consulta nem sempre a garota é examinada. Geralmente, é apenas um bom bate-papo para que ela se sinta à vontade. Na grande maioria das vezes, o exame ginecológico consiste na observação e palpação das mamas e inspeção dos órgãos genitais externos, não sendo necessária a introdução de qualquer instrumento. Se for imprescindível um exame interno, existe um espéculo próprio para virgens e não há risco de romper o hímen durante o procedimento. Os problemas mais comuns variam com a idade: recém-nascidas podem apresentar corrimento vaginal, que não precisa ser tratado. É causado pela passagem de hormônio feminino da mãe para a criança. Esses hormônios da mãe podem causar uma descamação das células vaginais, causando o corrimento e um discreto aumento (inchaço) das mamas que normaliza espontaneamente. De dois a sete anos os pediatras podem solicitar uma avaliação por causa de corrimentos constantes (vulvovaginites), que ocorrem porque a menina ainda não consegue ou não sabe fazer sua higiene adequadamente. Já na idade escolar, é comum a criança segurar muitas horas a urina porque não gosta de usar o banheiro da escola ou porque tem vergonha. Nestes casos, pode "escapar" um pouquinho e, como a urina é muito ácida provoca irritação na vulva e na entrada da vagina. Isso facilita a proliferação de fungos ou bactérias, que podem ser "pegos" inclusive nos banheiros. A partir dos oito anos, também surgem dúvidas sobre o desenvolvimento do corpo, como o aparecimento de pêlos e mamas e a primeira menstruação. A maioria das meninas menstrua entre 12 e 14 anos e, nesta idade, as principais queixas relacionam-se aos ciclos menstruais: irregularidades, cólicas, hemorragias e alterações hormonais (acne, TPM). Ciclos irregulares são normais até os dois primeiros anos após a primeira menstruação. Depois desse período, se houver irregularidades, é necessário investigar a causa e iniciar o tratamento. Se for necessário, pode-se começar a tomar pílulas hormonais que normalizam os ciclos. Quando a menina começa a menstruar, a velocidade de crescimento diminui e, apesar de não parar de crescer imediatamente, normalmente ela cresce apenas mais cinco ou seis cm. "Algumas garotas me perguntam se existe alguma forma de retardar a menstruação para crescer mais um pouco. Infelizmente não existe. Mas algumas pesquisas indicam que meninas fortemente estimuladas ao amadurecimento precoce tendem a menstruar mais cedo", comenta a Dra. Daniela. Outro problema que surge nesta idade, embora não seja comum, é o hímen não perfurado que impede a saída do sangue pela vagina. A adolescente sente cólicas intensas, aumento da barriga e a menstruação não aparece. Essa alteração é facilmente percebida pelo exame do hímen da menina e a ultrassonografia mostra o sangue acumulado dentro do útero, confirmando o diagnóstico. O tratamento é simples: com uma pequena cirurgia, o hímen é aberto para que o sangue possa sair normalmente. A partir dos 15 anos já começam a surgir questões sobre sexualidade, métodos anticoncepcionais, gravidez etc. Também é comum a dúvida se a adolescente virgem pode ou não utilizar absorventes internos. "Em geral, não há problema algum na utilização desse absorvente, desde que seja o tamanho mini", diz a especialista. Mas antes de começar a usar, é aconselhável ir ao consultório para avaliar o tipo de hímen. Nesta ocasião, a médica também pode ensinar a adolescente a usar o absorvente corretamente, inclusive ajudá-la a colocar. Assim, não existe risco de perder a virgindade. "Acho que as meninas que se sentem incomodadas em usar o absorvente externo em determinadas situações, ou quando querem ir à piscina ou praia, podem utilizar o interno sem problema. Mas devem lembrar de fazer a troca de 3 em 3 horas e, principalmente, não esquecer dentro da vagina!" aconselha a Dra. Daniela. Dúvidas sobre virgindade também são freqüentes. Iniciar a vida sexual não altera o desenvolvimento da adolescente e nem todas as mulheres sangram quando perdem a virgindade. Estas são as respostas para as perguntas mais comuns. Apesar do hímen fisicamente ser apenas uma pequena membrana rompida, é preciso avaliar também o aspecto emocional e psicológico do início precoce da vida sexual. Essa é uma questão muito pessoal, um momento especial para a mulher, e deve ser uma decisão consciente e não precipitada. Por isso, é aconselhável que a garota se prepare antes, buscando informações sobre o uso de preservativos e métodos anticoncepcionais. Atualmente, existem pílulas de baixíssima dosagem hormonal, feitas especialmente para adolescentes. Do ponto de vista médico, vale a pena lembrar que, o câncer de útero está intimamente relacionado ao início precoce da atividade sexual, promiscuidade (vários parceiros) e infecção por HPV. Embora seja mais comum em mulheres adultas com vida sexual ativa, adolescentes que têm muitos parceiros e não usam o preservativo (camisinha) podem apresentar lesões no colo do útero que se transformam em câncer. Nota do Editor: A Dra. Daniella S. Castellotti é especialista em ginecologia infanto puberal e atende no Instituto Paulista de Ginecologia e Obstetrícia (IPGO) em São Paulo, SP.
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