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Na noite de 02 de maio, milhões de expectadores foram ludibriados pela evocação em um programa dominical de que a homeopatia iria ser "testada" e o teste resultaria em prêmios financeiros milionários. Mais uma vez a mediocridade e a indecência da abusiva superficialidade pautaram o tom na TV brasileira. A análise histórica mostra que esta idéia de "torneios terapêuticos" e "testes" acabam sempre resultando em problemas para os homeopatas - portanto para os pacientes - quando não chegaram ao status de requisição de interdição de sua prática como aconteceu na Alemanha, França e nos EUA. O mesmo fenômeno se verificou desde o século XIX, repetiu-se com pesquisadores do XX e vêm ocorrendo nos últimos 200 anos. O que será que acontece com esta discussão que jamais se torna suficientemente elucidativa? Por que não se amadurece? Por que será que a natureza da polêmica acaba sempre vindo bater as portas do improviso e da grosseira superficialidade? Passada a fase de evocar teorias conspiratórias ficamos com uma tendência a examinar a incapacidade que parte da ciência hegemônica têm para aturar contradições. A homeopatia contraria determinadas regras da farmacologia? Desafia postulados da físico-química? Quer rediscutir o que é de fato curar? Acha que deve haver uma prática de medicina que leve em consideração o sujeito e não só a doença? Valoriza a narrativa e o qualitativo em medicina? Sim, e daí? A homeopatia não está sozinha nisto. Epistemólogos como Thomas Khun já mostraram a natureza flutuante dos paradigmas que ainda não se firmaram e sua substituição por outros. A ciência é apenas um aspecto que merece ser examinado entre tantos outros, como, por exemplo, a motivação psicológica ou ideológica dos pesquisadores. Tais lutas que podem demorar séculos e aconteceram com várias teorias científicas. Este seria um esclarecimento respeitoso que enalteceria a inteligência dos telespectadores. Mas desgraçadamente o que esta mídia buscava era a audiência, não exatamente o esclarecimento. Buscar denunciar o que julga engodo ou fraude é lícito - talvez a função mais nobre das mídias em uma democracia representativa - mas quem controlará a intencionalidade da denúncia? E mais, quem controlará os resultados daquilo que investiga? Tratar a homeopatia comparando-a com "falsos paranormais" desmascarados e enaltecendo a pífia figura de um senhor que tem a coragem - ou a falta de autocrítica - de se intitular "mágico e cético" prometendo que ao final nos mostrará o teste definitivo: "funciona ou não funciona" é um desserviço significativo à opinião pública, um ultraje aos milhões de usuários e porque não dizer uma instrumentalização preconceituosa da opinião pública. Na linha da ironia poderíamos apenas resmungar. Ora, que desperdício fazer isto em 4 módulos, defina-se já o veredicto, emita-se já o julgamento sumário, como é praxe: "Quanto à homeopatia, desta não se pode dizer que funciona nem que não funciona". Aliás, este anúncio têm sido o resultado do infrutífero e desgastante embate entre homeopatas fanáticos e sua oposição irascível, ambos evidentemente equivocados. Há um pequeno problema aqui, não deveria haver, em ciência, o mesmo gênero de tensão que povoa o imaginário do torcedor dos estádios ou dos militantes partidários. A salutar tensão que existe em ciência é literalmente de outra natureza. Envolve avaliar dialeticamente os fatos, testar hipóteses. Expô-las a contradição, buscar falseá-las e deixar que os argumentos e a inteligência da audiência (e dos usuários) definam afinal o que farão na vida prática com aquelas informações. Usar ou não usar. Confiar ou não confiar. Por isto mesmo jamais haverá um teste derradeiro, aquela experiência crucial que comprovará ou refutará a homeopatia assim como nunca haverá uma "prova dos nove" para a psicanálise e quiçá até para a própria biomedicina em muitas de suas evidentes contradições. É muito provável que a homeopatia elucide determinados trechos da medicina e da epidemiologia e que seja elucidada em outros segmentos pela genética, pela nanotecnologia e pelas ciências humanas. É assim que caminha aquilo que Feyraband chamava "pluralidade metodológica" e que os cientificistas não compreendem, vale dizer não aceitam, pois sob a razão monológica que os guia, equivaleria admitir - como já chegamos a ouvir - que teriam que "rasgar seus diplomas". É preto no branco, é certo ou errado. Para estas mentes não existem contextos ou condicionalidades. Não existe enfim, a possibilidade da quase-verdade. Trata-se afinal de falsos céticos, pois somente acreditam em sua dogmática incredulidade - que defendem como uma causa - enquanto o verdadeiro cético dúvida até de si mesmo, de preferência com bom humor. Os experimentos de Jacques Benveniste publicados na Nature em 1998 e ridicularizados por figuras patéticas como o tal mágico, foram recentemente comprovados por pesquisadores europeus que evidenciaram a presença - em substâncias ultradiluídas - de informações de caráter provavelmente eletromagnético, nas misturas soluto-solvente, que estavam, muito acima do limiar de dispersão da matéria (conhecido em ciência como número do Avogadro). É verdade que Benveniste quase chegou a perder sua reputação e admitiu falhas metodologias em seu trabalho, mas em entrevista a revista "Cultura Homeopática" ele afirmava que valeu correr o risco, pois ele estava mexendo com os mais inconfessáveis preconceitos da ciência: a ignorância sobre o que é o elemento água cujas ligações estáveis ainda não são explicáveis por nenhuma teoria científica conhecida e que o fez formular sua famosa hipótese da "memória da água". Mas será que isto "provará" ou "condenará" a homeopatia? Não mesmo. Mostra somente que está havendo um progresso de esclarecimentos - uma das características de uma prática científica segundo Gaston Bachelard - e que nos levará a perceber cada vez mais claramente como a homeopatia trata e quais suas perspectivas. A homeopatia não pretende ser hegemônica, apenas deseja que sua técnica, sua forma peculiar de avaliar saúde e enfermidade possam permanecer sendo investigadas em igualdade de condições com outras terapêuticas. E isto, sem dúvida, ultrapassa a dimensão do que é científico para penetrar em áreas mais amplas como a sociopolítica e ideológica das proposições que modulam as culturas e a própria sociedade. Nota do Editor: Paulo Rosenbaum é editor da Revista Cultura Homeopática, médico homeopata, mestre em medicina preventiva FMUSP e doutorando na mesma instituição.
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