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Uma louca certa vez sussurrou a outra louca que por sua vez transmitiu a muitas outras loucas a seguinte história que o louco Khalil Gibran eternizou em sua obra O Louco que foi lida por um outro louco e aqui reproduz em sua versão loucamente memorizada. Atente para a mensagem: A raposa (que não era louca) acordou, olhou para sua sombra e assim pensou: hoje vou comer um camelo. Meio dia a raposa viu a sua sombra e resolveu procurar uma lebre. A raposa é aquela que negou sua verdadeira natureza, que deixou de ouvir a voz de sua consciência, que não deu atenção aos seus sonhos, que não sente mais as mensagens de seu corpo, que se recusa a desvendar os mistérios de seu inconsciente e de sua sombra. Segue cego o que a sociedade lhe impõem, e esquece de si mesma. Assim como a raposa, as pessoas negam a sua imagem somática, aquela imagem real que brota de seu interior e que seria um caminho saudável de ser e estar no mundo. Negando a sua própria imagem correm atrás do próprio rabo buscando ser aquilo que a sociedade lhes dita através de seus símbolos. E o que elas querem ser? Querem ser vencedoras, ganhar a competição, querem consumir desenfreadamente até saciarem seus desejos que não tem fim, mas como isto não basta querem acima de tudo um lugar de destaque na mente do outro. É por isso que todo mundo hoje quer ser uma celebridade (a celebridade não faz nada por ninguém), mesmo que esta celebridade seja visivelmente triste, adoecida(o) e sem nenhum senso crítico ou ético. A celebridade é um símbolo prontamente descartável, que todos querem ser, mesmo correndo o risco da autodestruição. A celebridade é aquela para onde os holofotes da mídia apontam: um(a) artista, um(a) modelo, um(a) empresário(a), um(a) ativista político, um(a) atleta. E a mídia (às vezes tenta transformar pessoas que não querem ser celebridades em celebridades) sempre aponta para seus próprios interesses e seu holofote giratório não para um instante. Os símbolos midiáticos dizem o que você pode ser, até onde você deve ir, o que fazer; nadar contra a maré é loucura, a felicidade está aqui no supermercado, na última moda, no corpo mutilado da malhação, na mente preguiçosa que busca informação e não conhecimento, no "yoga ginástica" dos charlatães exibicionistas, nos cursinhos de auto-engano dos fins de semana e tantos outros. O louco por fim nos conta outra história: ... naquela vila, a noite uma bruxa enfeitiçou o poço com a bebida da loucura. Todos beberam daquela água e enlouqueceram, menos o rei e seu filho. A população após uma semana gritava que o rei e seu filho estavam loucos. O rei e seu filho então beberam da água do poço e a população saudava a cura do rei e de seu filho ... Uma outra louca complementa: ... a vila se deteriorou e aquelas pessoas em sua ignorância já tinham poluído suas águas, seu ar, sua comida e estavam prestes a se autodestruírem por completo até que chega um sábio. O sábio fingindo-se de louco aos poucos resgata em alguns o amor pelo conhecimento, o amor ao próximo, o amor a si mesmo, e depois de muitos anos a vila se torna o melhor lugar do mundo para se viver. O sábio se retirou, voltou para o campo, perto das raposas. Há quem diga que ele enlouqueceu. Márcio Ramos escreve da Escola Hospício de Yoga Clássico de Ubatuba.
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