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Opinião
09/05/2004 - 05h42
Por que Maradona quer morrer?
Cacá Bizzocchi
 

Maradona foi abençoado pelo talento inato, pela genialidade rara dos foras-de-série e por nascer em plena era da televisão. Quase todos os momentos do 10 argentino, enquanto jogador de futebol, têm registro em vídeo. Ao contrário de antigos craques que se sustentam muito mais na tradição oral dos mais velhos, Diego tem a prova inquestionável de sua brilhante trajetória. Maradona é eterno graças a uma conjunção de fatores que incluem esses acima.

Vestindo a azul e amarelo do Boca Juniors, a celeste do Nápoli ou a azul e branco da seleção Argentina, lá está El Pibe em vídeo tape apresentando suas obras primas pelas telas de todo o mundo. De repente, a edição do programa jornalístico trai a magia do passado e mostra a caricatura de mau gosto do presente. Debruçado sobre o parapeito da tribuna de honra, um amontoado de banha e papadas retribui sem agilidade a saudação da torcida. Ou enrolado em uma toalha de banho, que não esconde sua imensa barriga, ele caminha com dificuldade tentando se esconder de fãs e jornalistas. Sim, é ele. Os comentaristas da tevê riem e os telespectadores debocham do velho e acabado don Diego.

Não há como culpar o tempo, pois esse mesmo carrasco preservou Pelé, Beckenbauer, Zico e tantos outros que compreenderam que a decadência não está necessariamente atrelada à marcha do tempo e que a infelicidade não é irmã gêmea do afastamento da mídia e dos holofotes da fama.

Para Maradona, o passado de glórias foi pesando gradativamente sobre seus ombros. Quanto mais minguava o futuro à sua frente, mais o desespero tomava conta de Diego. Quanto menos suas pernas mágicas o obedeciam, mais ele se desesperava e praguejava contra a idade. E cada vez mais, tentava preencher com a cocaína essa lacuna. Maradona jamais aceitou que a única coisa que sabia fazer o abandonara para sempre. Mas não lhe bastavam as memórias nem a benção de ter sido um dos melhores de todos os tempos. Maradona sempre quis mais, não tendo o tempo em suas mãos, optou pela obscura viagem através do vício, que por alguns momentos o afastavam da verdade: sua época havia passado.

Longe da forma física e desconectado do autocontrole, deixou suas decisões entregues à vontade dos falsos amigos e às imposições do pó. O desespero pela busca da fórmula mágica do rejuvenescimento o enlouqueceu. Não a encontrando, optou por mergulhar na não-aceitação da decadência. E lá se foi o presente enquanto buscava apoiar os pés no passado.

Hoje, Maradona quer assassinar o homem para preservar o mito. O mito é imortal, o homem também pensa ser, mas busca o contrário. O homem não consegue administrar a vida que o mito lhe tirou. Maradona acreditou piamente no ufanismo argentino e aceitou a incumbência de ser Deus.

E, como Deus, brinca com a morte, pois acha-se imune à ela. Brinca de brincar de viver, arrancando os tubos, exigindo que os médicos libertem-no do hospital, jogando golfe a quinze graus de temperatura, empanturrando-se de churrasco e invadindo a madrugada poucas horas depois de sair da UTI. Maradona tenta levar o que resta de sua vida para onde já levou seu corpo. Maradona quer morrer porque não suporta viver como homem. O lugar dos mitos e dos deuses é no céu. Se morrer, ele se perpetua antes de se destruir por completo no imaginário popular.

Maradona quer ser expulso antes de admitir que dessa vez seu marcador foi melhor que ele. Maradona acordou para o farrapo que se tornou e não quer mais viver de imagens atuais. Ele quer que seus gols espetaculares e seus dribles mirabolantes continuem a pontuar a tela em lugar de seu corpo gordo, suas pálpebras quase fechadas e seu cérebro deteriorado, que troca palavras e não articula frases. Ele quer perpetuar o que a natureza lhe deu e não o que ele tirou de si próprio. Maradona tem vergonha do homem fracassado, mas tem orgulho de sua imagem imaculada de craque. Por isso, Maradona quer dar, finalmente, o golpe de misericórdia em Pelé e virar mártir de si mesmo.

Maradona espera ressuscitar no terceiro dia para regozijar-se com as manchetes dos jornais argentinos estampando: Deus morreu!


Nota do Editor: Cacá Bizzocchi é assistente técnico da Seleção Brasileira de Vôlei Feminino, cursa o último ano da Faculdade de Jornalismo da Uninove e é colaborador da Photo&Grafia Comunicação.

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