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SEÇÃO
Crônicas
07/12/2017 - 07h24
Loucos na parada de ônibus
Henrique Fendrich
 

Voltava de um dia triste, carregando muitas sacolas de mercado. Eram tantas que precisava voltar de ônibus para casa. Na parada, fui abordado por um rapaz: queria saber se, por acaso, eu não tinha 50 centavos para ajudar a inteirar a sua passagem. Por acaso, eu tinha. Depois do dia em que me vi em situação semelhante, precisando desesperadamente de dinheiro para pagar uma passagem, mas não encontrando um único cristão que me ajudasse, eu passei a dar uns trocados a tantos quantos me pedem. Vá lá que alguns não usem o dinheiro para pagar a passagem. Ah, Senhor, mas exterminarás o justo com o ímpio? E se houver dez justos na cidade? E se houver um único homem que, assim como eu, precise mesmo do dinheiro? Por amor desse homem, não destruirei a cidade. Dou as moedas, sem avaliar suas motivações ou sua sinceridade.

Se eu atentar às aparências, frequentemente cometerei injustiças. Lembro-me de certo homem, cabeludo e cheio de tatuagens, que um dia me abordou dizendo que havia perdido algumas moedas da passagem devido a um bolso rasgado. Em consequência disso, não tinha o suficiente para pagar o ônibus, e se não pegasse o ônibus não teria como chegar a uma entrevista de emprego. A história não era muito convincente e a aparência dele chegava a assustar um pouco, mas dei o dinheiro que lhe faltava. Ele me agradeceu exageradamente, parecia não acreditar que uma pessoa pudesse tê-lo ajudado daquela maneira. Alguns dias depois, voltei a encontrá-lo na mesma parada e ele quis pagar a minha passagem, em retribuição.

Pode ser, então, que a pessoa que fala a verdade seja aquela que menos aparenta. Olhei para o homem que havia me pedido dinheiro dessa vez. Ele se aproximou de um grupo de mulheres que também esperava o ônibus e começou uma espécie de discurso, do qual não cheguei a entender muita coisa, pois sua dicção não era boa. Mas contava sobre os seus dramas e confessava seus problemas psicológicos. Admitia que o crack era uma pedra na sua vida. E dizia sofrer com “vontades de suicídio e homicídio”. As mulheres tentavam ignorá-lo, queriam que ele fosse embora logo. Demorou um pouco, mas ele se cansou e, sem receber dinheiro algum, atravessou a rua.

Afastado o homem, as mulheres soltaram o riso. Uma delas se lembrou de outros casos recentes, de outros loucos que vieram puxar papo com ela em paradas de ônibus. Achavam que ela tinha cara de psicóloga. E elas riam e elas se divertiam, falando sobre aquele maluco que havia tornado a espera pelo ônibus mais agradável. Outra delas chegou a observar: “Você ouviu? Vontades de suicídio e homicídio. Se for só de suicídio, tudo bem...”.

Eu, que já andava meio triste, acrescentei a história daquele homem aos meus pesares. De certo eu errei, de certo aquele homem não precisava do dinheiro para pagar nenhuma passagem, provavelmente ele usaria as minhas moedas para sustentar seu vício. Seu nome não deve estar inscrito no rol dos justos da cidade. O meu próprio nome não deve estar. Mas não creio que eu ou ele sejamos motivo suficiente para justificar a destruição de todos nós. Isso fica por conta daquelas mulheres.

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