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SEÇÃO
Crônicas
12/07/2018 - 06h54
A mulher invisível
Henrique Fendrich
 

Não olhar, não olhar, não olhar para ela. Não é que eu não queira, você acha que eu não olharia se pudesse? Mas não posso olhar, sabe-se lá que coisas terríveis não adviriam de uma simples olhada que eu desse. Ela perceberia, essas coisas sempre se percebe, e pensaria alguma coisa como “por que esse cara está olhando para mim?”, e então as coisas não seriam como antes. Provavelmente ela passaria a me evitar, já não ficaria tão perto de mim enquanto esperamos o ônibus a cada manhã às 7h06. Que ela sabe que eu existo é fato, são sempre as mesmas seis pessoas que pegam o ônibus, todo dia, no mesmo ponto, todo mundo já se conhece de vista, mas a gente nunca conversa e, pior ainda, a gente nunca se olha.

É possível até que ela trocasse de horário, que saísse mais cedo, esperasse outro ônibus. Esse é o tipo de coisa que eu faria no lugar dela. Porque é preciso muito cuidado com esses caras que ficam olhando para a gente, não dá para adivinhar quais são as intenções deles, e ainda mais esse daí, que tem um jeito meio estranho, misterioso. Entendo, eu entendo perfeitamente que ela venha a me evitar, mas não quero que ela me evite, quero que continue aqui, quero a sua presença ao meu lado no ponto de ônibus, mesmo que seja só isso, uma presença, uma entidade que não se vê, só se sente, o que já é bom.

Claro, fosse antes, fosse eu, sei lá, 12, 15 anos mais jovem, e eu olharia, olharia descaradamente, e forçaria a situação de tal maneira que não caberia a ela outra coisa que não olhar de volta, certa de que os meus propósitos seriam os melhores possíveis. O que aconteceu de lá para cá, para que agora eu não olhe mais? Muita coisa, muita coisa triste que não é bom nem falar, muita decepção, inclusive comigo. E agora eu já sei que só olhar e ser olhado não quer dizer muita coisa, o que vale é o que vem depois, e o que vem depois é o que não confio que dará certo.

Talvez até haja a possibilidade de que ela não me evite, que goste de ser olhada, que comece a me olhar também, é improvável, mas não impossível, só que eu sei o que vem depois, sei o que a gente teria que passar depois das olhadas, e seria injusto que eu despertasse o seu interesse antes que ela soubesse de tudo isso. Então não olho, tento não olhar, olho só quando ela está à minha frente ou quanto tenho a impressão de que está olhando para outro lado. Até faço um ar meio blasé, sou um cara superior, sou um cara indiferente ao que acontece ao meu redor.

Mesmo sem olhar direito para ela, cheguei à conclusão de que possui um pouco de insegurança, uma mínima parte que seja, mas possui, e com essa mínima parte eu seria capaz de fazer todo um amor, porque eu sou toda a insegurança. E é por ser assim que eu sei que a ninguém agradam os inseguros, os hesitantes, os vacilantes, e a ousadia do meu olhar podia fazer com que ela se enganasse a meu respeito.

Não olho, não olho, olho para quem mais está comigo na parada de ônibus, há um rapaz ali, mais ou menos da minha idade, se ele quisesse olhar para ela eu nada poderia fazer, se ela olhasse para ele eu acharia tudo muito natural, mas doeria, de qualquer forma doeria, é bom que nunca olhemos a ninguém.

São 7h07, o ônibus está atrasado, mas isso não é o pior, o pior é que até agora ela não veio, olho ao redor para ver se ela se aproxima e nada, o ônibus já chegou, já parou, dou uma última olhada, se eu a vir eu juro, eu juro que serei magnânimo e farei aquele ônibus ficar parado até ela chegar correndo, e depois farei de conta que nada aconteceu, mas eu não vejo nada. Meu Deus, será possível que eu dei bandeira?

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