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Opinião
04/08/2018 - 08h25
Vice-presidentismo
Rodrigo Augusto Prando
 

O título, deste escrito, é homônimo do artigo de José de Souza Martins, renomado cientista social, publicado em 2011. Lá, Martins destacou, especialmente, o papel do vice-presidente de Lula, José de Alencar, que, durante os oito anos de mandato, governou o país por 447 dias, nas ausências de Lula. E, hoje, ao tratarmos da composição das chapas para as eleições vindouras, abundam no cenário atual - as indefinições, especialmente, dos vice-presidentes.

Tratando de José de Alencar, afirmou Martins: “José de Alencar não se deixou tentar pela possibilidade de tramar contra o presidente e de assumir o governo [...] Sua lealdade fortaleceu a instituição da vice-presidência. Do mesmo modo, sua candidatura, ao representar o aval do grande capital e do empresariado à candidatura do ex-operário Lula, representou também um passo decisivo na viabilidade de uma política de aliança de classes em favor do primado da pluralidade social e ideológica como fundamento da democracia brasileira”. A escolha de um vice-presidente não é questão simples, visto que são muitas as variáveis a serem consideradas, numa ampla gama de questões pessoais, partidárias e institucionais. Muitas vezes, o vice pode ser escolhido por conta da indicação da aliança que formou uma coligação partidária; noutras, o escolhido tem uma dimensão regional, permitindo palanques e a entrada em regiões que o cabeça da chapa - o candidato a presidente - não tem boas perspectivas; às vezes, o recorte é geracional, escolhendo um jovem e, até, uma escolha alicerçada no gênero, como, por exemplo, uma mulher que poderia atrair votos femininos.

O quadro em tela indica dificuldades para todos os candidatos. Alckmin construiu uma ampla coligação, com tempo de TV e recursos do fundo eleitoral, mas se não empolgar o eleitorado após uns 10 ou 15 dias de campanha na TV pode ver, novamente, seus planos frustrados. Bolsonaro, por sua vez, tem, virtualmente, uma intenção de votos que o credenciam rumar ao segundo turno, mesmo que com pouco apoio de outros partidos, quase sem tempo de propaganda eleitoral e de escassez de recursos; com idas e vindas entre muitos nomes, até o momento ninguém se associou à sua candidatura. Já Marina Silva tem recall e seu capital político de certa forma não foi contaminado por denúncias de corrupção, mas, também, ainda negocia com o PV para ter Eduardo Jorge como vice. Ciro Gomes, coitado, acendeu velas à direita e à esquerda e tomou um fenomenal drible de Lula que, mesmo preso, conseguiu isolar Ciro e o PDT, que queria o PSB ao seu lado. Henrique Meirelles, do MDB, até o momento sonda Marta Suplicy para vice e tem índices pífios nas pesquisas de intenção de voto. O PT, enfim, sabendo da impossibilidade de Lula concorrer, levará até o último momento essa decisão, pois indicar o vice será indicar seu “plano B”.

À guisa de conclusão, voltando às palavras de Martins: “O novo vice-presidente, Michel Temer, quer tirar a vice-presidência dessa hibernação. A movimentação em seu gabinete e as exigências de poder ao governo sugerem que seu ocupante parece pretender cogovernar a República: assim como com Lula surgiu o lulismo, com Michel Temer está surgindo o vice-presidentismo”. Inteligência aguda, José de Souza Martins, viu, em 2011, sinais do que se consolidaria em 2016 com o impeachment - dentro das regras constitucionais - de Dilma. Se, em tempos normais, não é fácil escolher um vice para chamar de seu, imaginemos, nos dias que correm, o efeito “Temer”. Temer chegou à presidência, alcançou o poder, de direito, mas não o exerceu de fato.


Nota do Editor: Rodrigo Augusto Prando é cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É bacharel e licenciado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia, pela Unesp/FCLAr.

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