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Crônicas
17/05/2004 - 16h38
A vaidade como caminho
Christian Rocha
 

Eu era gordinho quando tinha 10 anos. Na adolescência plena, o crescimento diluiu a gordura pelo meu corpo. Já não sou mais gordinho, mas sei que existe uma relação entre minha boa forma e o meu estilo de vida, que evita o sedentarismo.

Eu era bastante tolo até o final da minha adolescência. Embora não tenha sublimado toda minha tolice, ao menos eu lhe dei uma forma mais agradável, adicionei-lhe estudo, livros e pensamentos.

Sempre fui totalmente desprovido de espiritualidade. A escassez de atividades sociais na cidade em que vivo e a prática do Aikido me ofereceram a possibilidade de adicionar algum sentido superior à minha vida. Através das práticas individuais (isto é, não-sociais) pude ser lembrado da existência da divindade. Ainda não a experimentei, claro, mas a lembrança da existência de algo superior é suficiente para que eu me dedique o Aikido, uma das versões humanas do Caminho de Deus.

Esse tripé - saúde, sabedoria e santidade - é o que sustenta a vida de um homem que pretende ser completo. Ele nunca terá certeza de sua plenitude. A perfeição não está no objetivo, mas no Caminho.

Há pessoas que se dedicam a desenvolver essas três qualidades. O mundo não está preparado para conviver com elas. Elas são vaidosas, dizem os observadores. São egocêntricas. Buscam o desenvolvimento pessoal e com isso ignoram a massa de miseráveis que não têm a mesma aptidão, oportunidade e força para empreender essa busca. Buscam a perfeição num mundo em que a perfeição é uma ofensa. Isto é o que o mundo diz. Esta é a mensagem repetida toda vez que um miserável é mostrado como tal, toda vez que uma pessoa deixa de ser pessoa e passa a ser a encarnação do sofrimento do mundo.

No começo busca-se a perfeição por vaidade. Os cuidados com a saúde invariavelmente começam com os cuidados com a aparência. O que são as academias de ginástica? Um salão de beleza ou uma escola de saúde?

O estudo surge como necessidade. O sujeito quer dar certo e o estudo é o caminho menos arriscado para se tornar uma pessoa bem-sucedida. O desejo pelo sucesso é vaidade pura.

A espiritualidade começa na religiosidade, que começa em igrejas, templos e associações. A coletividade determina a medida de nossa religiosidade. Buscamos as religiões porque não percebemos em nós mesmos a semente da religiosidade. E através dessa busca encontramos ornamentos para o espírito: dízimos, livros, orações, terços, cordões, incensos, dogmas - coisas que todos têm e por isso nós também devemos ter. Vaidade.

A dedicação a essas coisas pode nos livrar delas ou nos indicar a versão divina dessas coisas, sempre exageradamente mundanas.

Uma das conseqüências dos cuidados estéticos com o corpo é a boa saúde. Não demora até que o mais troglodita dos puxadores-de-ferro ou a mais patricinha das freqüentadoras-de-salão percebam que força, beleza e saúde vêm de dentro - descanso, alimentação e estilo de vida. Mais um pouquinho e ele perceberá que até seu padrão de pensamento e suas emoções interferem no desempenho esportivo e na qualidade de pele, unhas e cabelos.

Uma das conseqüências do estudo voltado para o sucesso é o risco de tornar-se bem-sucedido. Mas isso, como costumo ouvir, é perfumaria. O valor do estudo está na possibilidade de se tornar sábio, de possuir algo que será sempre seu, de saber-como-fazer. No começo estuda-se para poder pertencer ao mundo como um líder, como um vencedor. Depois, conforme os livros e os mestres nos conduzem em Caminhos mais dignos, não importarão a vitória (que origina perdedores) e a liderança (que origina subordinados). O estudo será um caminho para a própria divinização. A boa saúde, como vimos antes, é a garantia de que esse caminho será trilhado sem grandes problemas físicos - já que estamos falando de coisas tipicamente humanas, já que o corpo é um veículo para a elevação espiritual.

O corpo reclama das cadeiras duras das igrejas (são feitas assim de propósito, para as pessoas não dormirem nas missas); a mente não vê sentido nas palavras dos monges e dos sacerdotes. Mas, por vaidade, a pessoa participa de rituais, põe-se diante de um altar e reza pedindo coisas que não têm nada a ver com Deus. Um pouco de estudo, dizia Einstein, nos afasta da religião; muito estudo nos aproxima dela. Se o sujeito é capaz de se livrar do lado vaidoso da sabedoria, invariavelmente ela o convidará a pisar no chão lodoso da religiosidade. Quando o lodo tiver ultrapassado a linha da cintura, certamente terá começado a entrar na zona da espiritualidade. E, em meio à escuridão fétida da espiritualidade, quando nada mais parecer suportável e humano, ele vislumbrará Deus. Espiritualizar-se - já que a verdadeira espiritualidade é constituída de verbos - é permitir, suportar, meditar, aceitar, silenciar.

Três bases, três níveis de desenvolvimento humano - saúde, sabedoria, santidade. Todas podem começar como vaidade, como uma busca egocêntrica pela perfeição. A dedicação honesta a cada uma delas transforma gentilmente a vaidade em caridade, pois a perfeição não tem serventia em si. O valor da perfeição está em poder oferecer ao mundo e às pessoas um indivíduo melhor, uma pessoa capaz de construir o Paraíso na Terra.


Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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