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SEÇÃO
Crônicas
11/01/2019 - 06h42
A vaqueirama da casca de pau
Rangel Alves da Costa
 

A casca de pau é a bebida autenticamente sertaneja, também conhecida como raiz de pau ou cachaça da terra. É preparada a partir da cachaça limpa, de engenho, misturada com raízes, folhas ou cascas de árvores matutas, colhidas nos carrascais catingueiros.

A cachaça é despejada em litro e depois recebe a mistura escolhida: angico, cidreira, quebra-pedra, quixabeira, pimenta, ameixa, pitó, coentro, além de muitas outras misturas. A casca, folhas ou raízes, são tampadas com a cachaça e não dura muito para começar a receber uma coloração diferenciada, segundo a infusão feita.

É um verdadeiro sucesso no mundo-sertão. Sempre foi assim, desde os primeiros desbravamentos. Tida também como remédio (se tomada na medida), é bebida do homem da terra, do matuto, do caboclo, do sertanejo depois da lide de todo dia ou entremeando um afazer e outro.

Bebida de pé de balcão, de bar nas distâncias e botequim de ponta de rua, também de relevância garantida nas melhores e sortidas prateleiras. Quem vai beber uma cerveja, a entrada é logo uma casca de pau. E tem gente que prossegue na pinga mesmo, principalmente se for acompanhada de umbu, de pedaço de caju, uma fruta qualquer para tirar ou dar gosto.

É demasiadamente apreciada por vaqueiros, lavradores, agricultores, por pessoas de todos os níveis e quilates sociais. Mas sempre melhor servida e bebida se ao pé do balcão e derramando um tiquinho ao santo beberrão que vive oculto nos bares.

O sucesso é tão grande, que toda sexta-feira uma turma de jovens vaqueiros se dirigem ao Memorial Alcino Alves Costa, em Poço Redondo, no sertão sergipano, para apreciar sem pressa a quixabeira, a umburana, a cidreira, a cachaça da terra. E bebem muito, de secar litro e enveredar noutro sabor.

Como dito, toda sexta-feira (também dia de feira na cidade), já perto do meio-dia, e eles adentram o portão e seguem na direção de onde as garrafas estão colocadas. Na verdade, as bebidas do Memorial, e somente casca de pau, estão ali colocadas com objetivos outros que não apenas a de bebericar até dizer chega.

A cachaça ali existente, além de servir como aperitivo ao visitante, certamente que possui a intenção de mostrar o costume e o gosto sertanejo pela casca de pau. Como num autêntico botequim, as bebidas estão em prateleiras, com os nomes da casca, raiz ou folha, e ao dispor do visitante.

Contudo, os jovens vaqueiros de Poço Redondo vão até o local e até se esquecem de que o mundo existe. Chegam, andejam um pouco pelos espaços, depois passam os olhos pelo sortimento de bebida, pedem um prato para colocar a fruta da vez, em seguida lançam mão de um litro da cachaça escolhida e sentam à mesa.

Fazem assim pela acolhida que sempre têm e pela paz e tranquilidade que há no local, bem como gostam de estar ao lado da própria história sertaneja. Sentem-se em casa, como se diz. Sentem-se num ambiente onde podem conversar sem rodeios e dialogar sobre o mundo sertanejo onde labutam na vida de gado.

Conversam principalmente sobre vacas, bois, novilhas, vaqueiros e vaquejadas. Todos do metiê da vaquejada, da cavalgada, da cavalhada e da pega-de-boi brabo no mato, muitas vezes ali jogam suas alegrias e seus infortúnios. Também cuidam das secas, das chuvas, das lavouras, de assuntos cheirando a terra e curral.

E eu - que já não bebo nem cerveja sem álcool - ponho-me apenas a ouvir, fazendo uma pergunta de vez em quando, mas deixando fruir aquela sabedoria. E sempre aprendendo, sempre colhendo naquelas lições matutas, as motivações para muitos dos meus escritos.

E enquanto isso, mais uma dose de cidreira, de pimenta, de quixabeira, de capim santo. E assim a vida vai. E assim a vaqueirama entorna sua pinga com sabor do mais autêntico sertão.


Nota do Editor: Rangel Alves da Costa é poeta e cronista. Mantém o blog Ser tão / Sertão (blograngel-sertao.blogspot.com.br).

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