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COLUNISTA
Marcelo Sguassábia
11/02/2019 - 07h16
Do uso do celular como telefone
 
 

Manda a nova etiqueta pessoal e do mundo business que ligações telefônicas só devem ser feitas em caso extremo, quando esgotados os últimos recursos de contato e o motivo seja realmente muito urgente e justificável.

De politicamente incorreta ou socialmente invasiva, a prática de ligar para as pessoas já vem chegando ao patamar do inaceitável.

Tamanha é a rejeição geral a essa modalidade arcaica de comunicação que o oligopólio das teles já costura, em conluio com as grandes indústrias de celular, um acordo para que todos os aparelhos, a partir do ano que vem, saiam de fábrica só com a caixa postal habilitada. Para liberar o uso no modo telefone será necessário um desbloqueio feito junto à operadora do assinante, com preenchimento de formulário justificando o motivo por que é imprescindível a ligação. Quando da solicitação, um sistema unificado de controle emitirá um número de protocolo a ser enviado de forma privada ao requerente, juntamente com a previsão de quando o seu telefone estará habilitado para utilização (imagine!) como telefone.

Não sendo caracterizados casos de natureza excepcional, o telefone celular deve ser usado apenas para aquelas tarefas correspondentes à sua vocação original de fábrica. Dentre elas, ouvir música, mandar mensagens de texto e em áudio, navegar na internet, fazer compras, elencar afazeres no bloco de notas, conferir a previsão do tempo, pedir buchada de bode no i-food e assistir de uma sentada só à penúltima temporada do Game of Thrones.

Ou ainda: GPS, despertador, alarme, calendário, agenda, console de jogos, câmera fotográfica e de vídeo, personal trainer, secretária.

E, muitas vezes, de forma mais ambiciosa e controversa: escola, local de trabalho, banco, pai, mãe, conselheiro, amante, psicólogo e até médico, já que é principalmente através dele que se consulta o Dr. Google.

Fora isso, já se sabe que Organização Mundial de Saúde e congêneres agradecem o banimento de ligação telefônica via telefone. Conforme comprovado cientificamente, o nível de radiação emitido pelo dispositivo é tanto maior quanto mais proximidade houver entre este e o ouvido do usuário. Tá aí um ótimo motivo para manter segura distância entre o uso telefônico e o smartphone.

Pronto, falei. E sem usar celular.

Esta é uma obra de ficção.


Nota do Editor: Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário em Campinas (SP), beatlemaníaco empedernido e adora livros e filmes que tratem sobre viagens no tempo. É colaborador do jornal O Municipio, de São João da Boa Vista, e tem coluna em diversas revistas eletrônicas.
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