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Crônicas
16/05/2019 - 07h06
`Dando um tempo´
Marina Alves
 

Creio no tempo. E o tempo é este Senhor de túnica aos pés, cajado na mão, barbas e cabelos longos se misturando na branquidão dos séculos. Senta-se em trono rústico e tem uns olhos envelhecidos, mas eternos sobre o universo. É um sábio, e assim o imagino. Creio no tempo. E o tempo passa para todos, inclemente. Com seu bastão, a cada batida da ponta no chão, mais um dia se desfia no rosário de viver. Ninguém foge, ninguém escapa, a cada hora que se escoa.

Creio no tempo. De Deus, de todos nós, de cada um. E cada um realmente tem seu tempo. E o mal de todos nós, de cada um, é muitas vezes desacreditar do poder deste velho sábio que de longe manipula sua ampulheta, grão a grão escorrendo a cada minuto. E vejo na expressão do velho, um riso divertido por sondar os homens - ah, esses homens tontos e ingênuos, embriagados de sua pseudossabedoria! 

O tempo é doutor. Graduado em sapiências profundas, pós-graduado em vivências, ensina coisas que até Deus duvida. E se Deus o permite correr assim acima de todas as coisas, é porque também confia em sua retidão. E está mesmo tudo reto, tudo certo, porque a própria sabedoria um dia afirmou: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”. E o tempo que sabe ser essa a grande verdade, sentou-se sereno em seu trono e reinou para sempre. Reina até hoje, reinará até o fim dos tempos, ou até o fim de si mesmo.

O tempo sabe de tudo. Por isso, tenho buscado não me afobar. Apenas espero. O tempo sabe que muita palavra dita é precoce, e como tal não nasce madura. Sabe que muito pensamento apressado só fará com que o pensador o engula cru. Sabe que quem forçou a saída da lagarta do casulo, na ânsia vã de libertá-la, só a viu morrer mais cedo. Sabe que o que nasceu errado, na vontade e força de fazer acontecer, deu errado no final. Sabe também que a gestação que seguiu pelo atalho, abortou-se no trajeto.

O tempo sabe tanto! Sabe tanto que a gente nem sabe o quanto. E pede apenas que aprendamos a esperar. Mas esperar é tarefa das mais difíceis em tempos de homens que comandam. Não há espera na análise, não há leitura nos desejos, não há paciência na aflição. E tudo desenfreia-se na cascata do primeiro pensamento, no afã de chegar primeiro, na vontade de passar por cima, no desejo de avançar e vencer.

Tudo vai mal. Tudo vai mal quando a gente se atreve a desafiar o sábio tempo. Aí vem o tempo dos temporais, o tempo das vacas magras e das sementes estéreis. Então, por que a pressa? Então, por que a correria, o atropelo, a falta da cautela, o desespero? Por que o risco de pôr tudo a perder antes do tempo, sem virar flor, sem culminar em fruto?

O tempo é senhor das indagações, mas também das respostas, e estas se apresentam uma a uma. Esse poderoso Senhor, não deixa ninguém a ver navios. Então, para que desperdiçar tanto latim querendo antecipar respostas que só o tempo tem o poder de dar? É só esperar, e elas vão brotando uma a uma sem que se possa mudar uma vírgula, todas advindas das próprias ações do homem. Sim, porque o tempo apenas rege e observa, mas o homem é quem responde pelo que fabrica - para o bem ou para o mal.

Em tempos de profundas ansiedades desaprendemos de esperar e pensar antes de fazer. Esquecemos o velho ditado que o tempo traz como ensinamento maior: “Pense três vezes, antes de agir”, e no desarranjo da pressa o trocamos por “Aja três vezes, antes de pensar”. É por aí que tudo começa a desandar e daí por diante muita coisa só fica pior. 

Daqui do meu canto, de uns tempos pra cá, vou “dando um tempo” ao tempo e sigo reaprendendo a aprender com minhas esperas. Não tenho me decepcionado: o tempo, numa velocidade bem maior que eu possa esperar, tem me dado muitas respostas - e continuará a fazê-lo, tenho certeza. Creio no tempo!

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