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Opinião
20/05/2019 - 06h50
O cinema não pensa mais
Douglas Henrique Antunes Lopes
 

Ao assistir a um filme, você já teve a impressão de saber o final? Isso não ocorre somente pela sua capacidade dedutiva, mas porque existem determinados padrões de produção de roteiros que inundam os grandes estúdios com a finalidade de garantir os seus lucros. Ou seja, os enredos simples e os personagens com os quais o espectador já está habituado garantem grande público - o que explica porque a franquia Velozes e Furiosos está na produção do seu 9° filme e a Marvel já lançou mais de duas dezenas de títulos desde 2007.

Os filmes de franquia apresentam-nos os mesmos personagens em situações análogas, de modo que o maior atrativo para o público não é a narrativa, mas os efeitos especiais, quer seja a quantidade de explosões, os tiros ou malabarismos exibidos em tela da forma mais frenética possível. No entanto, nem sempre foi assim.

Quando o cinematógrafo foi criado pelos irmãos Lumière, os primeiros filmes registravam pessoas em situações cotidianas, antecedendo os documentários. As produções encomendadas por Thomas Edison eram filmadas em estúdios com atores provenientes do teatro, o que culminaria com as premissas do cinema ficcional, gênero que dominou as telas comercialmente em relação às obras documentais.

A partir daí, foi necessário aprender a contar histórias através das câmeras e dos processos de edição. O cineasta Jean Luc Godard chegou a dizer que “a câmera escreve”, o que torna possível aproximar o cinema das outras formas de contar histórias, tanto oralmente, como por meio da literatura. Nesse sentido, é possível apontar uma série de investigações provenientes das pesquisas literárias ou que dialogam com elas, influenciando as produções cinematográficas.

O livro O Herói de Mil Faces (por exemplo) do mitologista Joseph Campbell nos apresenta o conceito de “narratologia”, referindo-se ao estudo das narrativas de ficção e não ficção. Campbell identifica um padrão básico na composição das mitologias de diversas culturas, trazendo à tona a possibilidade de apoiar-se em determinados padrões para se contar uma história, o que influenciou os trabalhos de diretores como George Lucas e Francis Ford Copolla. 

Syd Field recorreu a ferramentas da narratologia para escrever livros como o Roteiro - Os Fundamentos do Roteirismo e Manual do Roteiro, apresentando à indústria fílmica o conceito de “paradigma”, que oferece certos padrões para se escrever um roteiro e definindo elementos essenciais, tais como a quantidade de atos e o tempo que o filme deve durar.

Agora sabemos porque somos capazes de saber o que acontecerá no final dos filmes a que assistimos. Minha crítica não está direcionada à narratologia, mas à falta de coragem de quem resiste em contar novas histórias ou contá-las fora dos moldes pré-estabelecidos, como fizeram o Cinema Novo no Brasil, o Neorrealismo na Itália ou a Nouvelle Vague na França.


Nota do Editor: Douglas Henrique Antunes Lopes é professor do Centro Universitário Internacional Uninter. Atua nos cursos de Filosofia, Serviço Social e Pedagogia, além do Curso de Extensão Cineclube Luz, Filosofia e Ação.

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