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Crônicas
04/06/2019 - 05h04
O maior vendedor de rifas
Henrique Fendrich
 

Eu havia de ficar célebre nesta vida, nem que fosse como o aluno que mais vendeu blocos de rifa da festa junina do colégio. Havia prêmios para quem se destacasse na venda da rifa, mas o que interessava a mim era me sair melhor em alguma coisa do que os meus colegas de quarta série. A diretora citaria o meu nome, talvez até me desse uma medalha. Seja como for, o meu nome ficaria em evidência e todo mundo - inclusive aquela menina que sentava perto da parede - perceberia que eu não era simplesmente aquele sujeito desengonçado de quem todos podiam debochar sem medo de alguma vingança minha. Era fundamental, pois, vender muitos blocos de rifa.

Reservei o sábado pela manhã para sair pela vizinhança vendendo a rifa. Lamentava que o bloco tivesse apenas dez números, pois isso seria vendido em um instante. Na segunda eu pegaria outro bloco e assim iria fazendo durante todo o mês. Não achava que algum dos meus colegas se daria ao trabalho de sair de casa no sábado de manhã para vender rifa. Eles iriam deixar tudo para a última hora. Na hora em que se falou nos prêmios para quem vendesse mais, todos se animaram, mas isso era fogo de palha. Só os perseverantes como eu é que alcançariam esse feito. No sábado, eu venderia o meu primeiro bloco.

Chegou o dia. Eu poderia ir a pé mesmo, mas decidi que iria de bicicleta, pois assim eu poderia ir de um lugar a outro com mais facilidade e vender os bilhetes mais longe. Não tinha nenhuma estratégia. Eu sabia como agem as pessoas que querem vender alguma coisa. Elas simplesmente chegam à frente de uma casa, batem palmas, alguém vem atender, dizem o que querem e pronto. É possível que pessoas ruins se recusem a comprar a rifa, mas não se imagina que não haja ao menos 10 cristãos que não as comprem.

Sai de bicicleta. Por experiência própria, sabia que essas pessoas batendo palmas na frente de casa podem ser bem importunas para os moradores. Era melhor eu oferecer a rifa para os que já estivessem na frente de casa. Era sábado, as pessoas têm coisas a fazer no quintal ou na garagem. Andei pela rua. Não vi ninguém na frente de casa. Fui até o loteamento no fim da rua. Ali vi uma pessoa na frente de casa. Será o primeiro, pensei. Mas ainda hesitei em me aproximar, quem sabe ainda não seria importuno. O homem olhou para mim justamente no momento da minha hesitação. Deixei passar o olhar dele sem tomar uma decisão. Recompus-me na bicicleta, segui adiante como se nunca tivesse querido parar por ali.

Bem, haveria outros. Diminuía a velocidade da bicicleta, ameaçava me aproximar de uma pessoa, elas então me olhavam, pensavam “o que será que esse aí quer”, e isso bastava para que eu desistisse e seguisse adiante. Isso não podia continuar. Precisava tomar uma decisão. Resolvi bater palmas. Uma casa me pareceu mais simpática. Parei ali e estive a ponto de bater palmas - mas não bati palma nenhuma.

Andei pelas mesmas ruas várias vezes, mas não ofereci a rifa a ninguém. Já estava angustiado. Como iria voltar para casa, se eu havia dito que sairia para vender a rifa? Vi então um minimercado. Encostei a bicicleta na frente, na época não se roubava. Entrei e fiz de conta que estava interessado nos produtos do mercado. Assim, como quem não quer nada, fui me aproximando do balcão. A mulher perguntou o que eu queria. Se não perguntasse, eu não falaria. Falei da minha rifa, ofereci. Ela foi simpática, agradeceu e tudo, mas não comprou. Esse episódio, no entanto, consumiu-me tanto esforço que voltei para casa, sem vender nenhum bilhete, sem coragem de oferecê-los.

Eu não consegui provar nada a ninguém: eu era realmente aquilo que achavam que eu era.

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