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COLUNISTA
Marcelo Sguassábia
07/10/2019 - 06h21
Rotação invertida
 
 

Desde que o mundo é mundo, ele gira em torno do próprio eixo no sentido anti-horário. Não se sabe exatamente o que ou quem resolveu inverter a ordem das coisas, mas o fato é que um belo dia passamos a girar no sentido oposto. Digo “passamos” porque, queiramos ou não, estamos a bordo dessa nave louca e não há nada de prático que se possa fazer a respeito.

Com o planeta girando para o outro lado, o tempo, acostumado a andar para a frente, começou a ir para trás.

Voltava-se do trabalho antes de ir para ele. Transas começavam pelo orgasmo e terminavam nas preliminares. A pipoca pronta saindo do microondas era enfiada de volta ao forno, o saco estufado ia murchando até virar um montinho de milho, dali voltando à despensa de casa e dela retornando à prateleira do supermercado.

Livros passaram a ser escritos do epílogo para o prólogo. Do Pós-Doc se pavimentava lentamente o caminho que culminaria no Jardim da Infância. A Terra passou a ser habitada por poupadores compulsórios, já que ao cuspir as notas nos saques os caixas eletrônicos as engoliam imediatamente de volta. E assim por diante, em tudo o que se possa imaginar a reação antecedia a ação, o avesso passava a ser a ordem natural das coisas.

Filmes, séries e novelas de TV eram um spoiler do início ao fim. As bitucas de cigarro arremessadas à rua saltavam de volta para a mão do fumante, tornavam a ser cigarros inteiros e integravam de novo o maço, que por sua vez acabavam no bar em que foi comprado.

Muitos estranharam a princípio. Houve protestos, barricadas, queimas de pneus, passeatas com bateção de panela. A oposição botava a culpa na situação pelo fenômeno, e vice-versa. Mas sob o efeito reverso, quando as multidões saíam às ruas, estas, por maiores que fossem, iam minguando até não sobrar ninguém. E o resultado de tudo era um retumbante fiasco.

É preciso que se diga que, antes da inversão rotacional, aconteceu o big breque. E haja ABS para segurar a pelota sem mandar pro espaço tudo que estava em cima (ainda que a pelota seja um disco, como teimam alguns). Sim, porque giramos a nada menos de 1.700 quilômetros por hora. E, planos ou esféricos, estamos girando.

O lado bom da catástrofe é que as pessoas rejuvenesciam dia após dia, trazendo à realidade a ficção de Benjamin Button - o cara do filme que nascia velhinho e com o passar dos anos ia virando criança. Ao mesmo tempo, cadáveres putrefatos iam se recompondo embaixo das lápides, eram puxados para cima pelo coveiro, trazidos ao velório, depois à Santa Casa e desta até suas casas, antes da hora fatal. Que nunca aconteceria.


Nota do Editor: Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário em Campinas (SP), beatlemaníaco empedernido e adora livros e filmes que tratem sobre viagens no tempo. É colaborador do jornal O Municipio, de São João da Boa Vista, e tem coluna em diversas revistas eletrônicas.
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