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SEÇÃO
Crônicas
21/09/2020 - 06h54
Brevíssimo instante em que tudo é possível
Henrique Fendrich
 

No início, era o vazio. Nenhum pensamento assomava à mente, pois ainda não havia consciência de si. Não havia necessidade de se perguntar “quem sou eu?”, pois ainda não se sabia que, forçosamente, era preciso ser alguém. Era um vazio pleno e sereno que não chegava exatamente a ser agradável, se bem que tinha o grande mérito de não trazer dor. Mas é como se esse estado de coisas não fosse feito para durar. Lentamente, sente-se a falta de alguma coisa.

Esse é o primeiro desconforto, a ausência, o desejo de entender, porque já há a impressão de que existe algo mais do que o puro vazio. Já se pode falar em “pensamento”, afinal, se bem que ele ainda seja confuso, pouco coerente e esteja apenas querendo se organizar. Aos poucos, forma-se a noção de que se é alguém, uma individualidade, com uma trajetória e com a memória particular dos próprios passos, mas quem, quem haveria de ser, isso ainda não se sabe.

Serei feliz ou triste? Acaso amo e sou amado? Vivo só ou estou cercado de pessoas? Já sou velho ou ainda uma criança? Aliás, sou homem ou mulher? Esbanjo saúde ou estou preso a uma cama de hospital? A que tipo de coisa costumo dedicar o meu tempo? Tenho algum propósito bem definido para a vida? Que tipo de dramas vivenciei e quais ainda me acompanham na forma de traumas? Tenho bens ou vivo miseravelmente? Sou virtuoso ou tenho desvios de conduta? Absolutamente todas as possibilidades são válidas enquanto ainda se tateia em busca da verdade sobre a sua própria existência.

E então a memória vem. Tanto foi o esforço pela sua descoberta que ela vem e desaba sobre a sua consciência com a força de um relâmpago. Já não há mais vazio e a sua maior confusão já se desfez. Você já se lembra de quem é e - ai de ti -, geralmente, percebe que, entre todas as possibilidades, as suas não são exatamente as melhores. Que fazer? Haveria uma chance de ser diferente quando as coisas ainda eram todas possíveis? Não se sabe. Tudo o que você sabe é que acordou. E que começou um novo dia.

É tempo então de pensar: “Muito bem. Aqui estou eu, mais uma vez. Sou exatamente o mesmo de quando me deitei. Absolutamente nada aconteceu durante a noite. Nenhum sonho foi especialmente marcante. Mortos não vieram falar comigo enquanto eu dormia, não houve qualquer visão que me desse a segurança da direção a ser tomada. Estou com o mesmo fardo de ontem, a mesma coleção de velhos hábitos e antigos medos que cultivo como se deles dependesse para viver. Vou me levantar e ir ao trabalho, como faço todos os dias. Repetirei gestos que estou acostumado a fazer. Em suma, viverei um dia sem espantos e sem encantos. Ninguém surgirá na minha frente para me sacudir e fazer perceber as verdades insuspeitas ao meu redor. Estou reduzido à minha própria consciência. Mas por quanto tempo isso irá durar? É ilusão achar que tudo vai continuar assim! Haverá uma mudança, talvez não de uma vez. Acaso será para melhor? Mas por que haveria de ser? No fim das contas, de que vale pensar nisso?”.

É preciso, afinal, começar a se preparar para todos os compromissos a que se foi arrastado por uma cadeia interminável de eventos, muitos sem a sua participação, mas tão somente a sua tolerância. É preciso enfrentar o que se entende por realidade. Logo se esvai a própria lembrança daquele estado de semiconsciência com que o dia se iniciou. Você está outra vez imerso em si mesmo. E agora já sente toda a dor das coisas que não podem ser de outro jeito.

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