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Opinião
22/09/2020 - 06h50
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Daniel Medeiros
 

Essa é a história de John Shepherd, um homem que, durante quase trinta anos, mandou sinais para o espaço em busca de um contato com alienígenas. Solitário, filho de uma família destroçada por desacertos indizíveis, viveu desde pequeno com os avós em uma zona rural de Michigan (EUA). Aos poucos, na medida em que sua ideia de buscar outras vidas no espaço sideral ia tomando forma, transformou a casa dos avós em um bric a brac de telas, antenas, amplificadores, uma parafernália sem fim para permitir que a sua mensagem fosse o mais longe possível no universo de distâncias impossíveis. John aprendeu e construiu tudo sozinho e, ano após ano, esperou, até que, finalmente, o dinheiro acabou de vez e ele desmontou tudo e guardou no porão da casa onde ainda hoje visita e aponta, ora para um pedaço de metal, ora para uma tela empoeirada, e comenta, nostálgico, sobre sua busca, sua experiência.

John acreditava que, se os aliens pudessem ouvi-lo, então teriam de ouvir coisa boa e, por isso, todos os dias fazia um programa de rádio para “eles”, tocando música de todas as partes do mundo, música instrumental europeia, música africana, indiana, cubana, em um exercício de diversidade e em um desejo de que o seu contato com os extraterrestres não fosse mal entendido como o de um só povo falando. Ao final da transmissão, John dava boa noite e prometia que, no dia seguinte, estaria ali novamente. Durante décadas, ele teve essa audiência universal, embora nunca tenha recebido uma carta de agradecimento ou um pedido para uma música especial. Do que sabemos sobre a física, esse repertório de vozes e batuques, metais e cordas ainda agora está vagando entre as estrelas. Talvez, quem pode saber, algum dia de algum ser perdido entre as galáxias possa ainda ser despertado pela playlist desse homem curioso.

Então chegamos ao fim da história e a pergunta que não quer calar é uma só: John consegui fazer algum contato? Sim, a história tem um final aconchegante e feliz. Como o nosso próprio herói conta, no curta metragem - de apenas 16 minutos de duração - John à procura de Aliens (Netflix, 2020), dirigido por Matthew Killip, aos 14 anos ele descobriu que era gay - e onde ele morava isso era como ser também uma espécie de alien. John viveu anos e anos sem ter uma relação afetiva - além dos pacientes e generosos avós -, sem ter alguém para chamar de meu amor. Quando olhamos o rosto de John na tela, um homem envelhecido com uma barba em desalinho e dentes estragados, pensamos logo que ele desperdiçou sua vida. Mas não é verdade. Ele estava fazendo algo que, de resto, todos nós também estamos, o tempo todo: buscando contatos que nos façam sentir parte de algo, não importa onde, nem quando, mas em algum momento e, quando esse momento acontece, sentimo-nos realizados. Como ele mesmo comenta: "acredito que sempre haverá alguém, uma pessoa que seja, com a qual seja possível uma relação verdadeira”.

A busca de John acabou em um bar da cidade mesmo, ali pertinho da casa de seus avós. Um homem que, desde o primeiro momento, o atraiu e foi atraído por ele. Um amor que - pelas fotos que aparecem no filme - é de muitos anos-luz. Ali estão eles, cabelos e barbas enormes, mas o indisfarçável sorriso é evidente, como uma super nova, brilhante e encantador.

O filme termina com a imagem dos dois se beijando. John, o solitário, o esquisitão, era apenas um rapaz diferente querendo ser parte do grande projeto da espécie humana: ser feliz. E ele foi até as estrelas mais distantes, espalhando música, compromisso e carinho. E o universo conspirou em seu favor, levando-o ao bar da cidade, naquele momento, exatamente naquele momento. O resto é história. A história de John Shepherd.


Nota do Editor: Daniel Medeiros (danielmedeiros.articulista@gmail.com) é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.

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