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SEÇÃO
Crônicas
16/10/2020 - 06h24
Flor da vida
Rangel Alves da Costa
 

O ano inteiro de muita chuva. E esse ano foi de muita chuva mesmo. Dificilmente não amanhecia chovendo ou os pingos d’água se derramando do entardecer em diante. Muita gente dizia que desde muito que não se via um sertão com tanta fartura de água.

Tanques cheios, terra encharcada, água muita escorrendo nas ribanceiras. Os respingos entrando pelas janelas e as goteiras lavando velhos sofrimentos. Os olhares molhados das águas das alegrias, as mãos desejosas de trabalhar a terra para semear. Não havia medo ou temor, pois o tempo respingando vida fortalecia cada vez mais a esperança sertaneja.

Lá fora, pelo mundaréu sertanejo, além dos cercados e mais além, tudo exalando alegria. A catingueira florida, os arvoredos pujantes, a mataria tomada de viço e frescor. Pastagens verdejantes, um tapete de natureza em flor perante o olhar. Coisa mais linda o jardim sertanejo molhado de chuvarada.

As mãos de esmolas d’água negavam as submissões para se elevarem ao alto em preces de agradecimento. Os carros-pipas já não chegavam como milagres eleitoreiros. Do alto, caindo do alto, o sertanejo era reconhecido por uma força maior, por um poder bem maior.

O sopro divino era de nuvens cheias, prenhes, gordas, de muita água. O ano inteiro quase assim, quase uma eternidade sem os velhos e conhecidos sofrimentos. Mas as chuvas começaram a escassear. As manhãs não nasciam molhadas nem as noites chegavam espargindo vida em cada gota caída.

Estava bom demais para continuar assim. As colheitas fartas, as barragens fartas, as pastagens fartas, as alegrias fartas. Nem tudo tem a continuidade tão desejada. Por mais que chova e continuamente chova, o sertão sempre será sertão. E por ser assim, um sertão tão sertão, é que de repente o verde vai dando lugar ao cinza, a florida paisagem vai dando lugar ao definhamento.

Quando nenhuma flor restar mais na paisagem, somente a catingueira a preservar nos seus galhos e na nossa memória o mundo em que vivemos. Uma flor em meio à sequidão. Quando a terra esturricar de vez e o passarinho bater suas asas com destino incerto, então o sertão terá reencontrado sua face mais triste: a seca.


Nota do Editor: Rangel Alves da Costa é poeta e cronista. Mantém o blog Ser tão / Sertão (blograngel-sertao.blogspot.com.br).

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