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Opinião
20/01/2021 - 05h58
Muito além do admirável 1984
Dartagnan da Silva Zanela
 

Todo mundo conhece o livro “1984”, da mesma forma que todo mundo já leu a obra “Admirável Mundo Novo”. O primeiro é da autoria de George Orwell, já a segunda é fruto da pena de Aldous Huxley. Se ainda não deitamos nossas vistas sobre as suas páginas, mesmo assim, possivelmente temos uma vaga noção do que é apresentado através da sinuosidade de suas linhas magistrais.

Estejamos nós no primeiro time, dos conhecedores, ou no segundo, dos antenados, todos sabemos que hoje vivemos num mundo que é uma combinação tremendamente sinistra das linhas que dão forma a essas duas distopias.

Muitas são as obras literárias que tem lá os seus ares proféticos, muitas, mas não existem livros que tão bem descreveram os caminhos que iríamos trilhar, descaminhos esses que hoje estamos seguindo num passo pra lá de acelerado, diga-se de passagem.

Huxley, nos anos cinquenta do século passado, em seu livro “O regresso ao admirável mundo novo”, apresentou algumas reflexões a respeito do que ele havia descrito em sua distopia que fora publicada nos anos trinta. Nessas páginas ele diz-nos que imaginava que suas “profecias” - é desse jeito que ele se refere às projeções apresentadas no “Admirável mundo novo” - iriam se realizar por volta do século VII depois de Ford; estava enganado, dizia ele. Elas já estavam mostrando as suas garras na metade do século I depois de Ford.

Bem, se a besta-fera já estava mostrando as suas garras nos anos cinquenta, deixando o autor estupefato, hoje ela está à vista de todos, porém, apenas pode ser devidamente identificada se tivermos as referências mínimas necessárias para reconhecê-la, pois, como todos bem sabemos, é preciso que tenhamos em nossa mente uma razoável imagem do mal para que possamos identificá-lo quando trombarmos com ele.

Se não estamos munidos dessas ditas cujas, das referências, podemos acabar como um peixinho dentro das águas do mar sem saber que estamos dentro dum imenso oceano.

Estamos imersos no admirável mundo novo sob a égide de 1984, sejamos capazes de reconhecer o quão sério isso é ou não.

Um dos elementos marcantes na distopia de Huxley é o asfixiante clima de promiscuidade, simbolizado de forma singular naquele lema que nos acompanha na leitura de suas páginas e nunca nos abandona: “cada um pertence a todos”. Ou, como ouvimos aqui e acolá, nos dias atuais: “ninguém é de ninguém”.

Esse clima de promiscuidade que impera nesse mundo nada admirável, desenhado pelo autor, é semelhante por demais com os ares que imperam no mundo em que vivemos. Clima esse que, na obra, tinha um papel fundamental no controle da sociedade. Seu objetivo era a dissolução de toda e qualquer relação afetiva durável, reduzindo a vida de cada um a efemeridade vazia do momento.

Ao fazer isso, a família, enquanto uma instituição social intermediária, cuja existência transcende a vida dos indivíduos viventes, que poderia servir de trincheira para os indivíduos se protegerem das pressões imprimidas pelas multidões, pela sociedade, corporações, ideologias e, é claro, pelos poderes constituídos pelo Estado, não mais existiria, deixando os indivíduos atomizados, fragilizados, permitindo que eles mais facilmente possam ser manipulados, controlados, instrumentalizados.

Por isso toda essa obsessão com a redução da sexualidade humana a um reles parquinho de diversão para troca de fluídos corporais com finalidade única e exclusiva de obter algum prazer usando outra pessoa como um reles objeto.

Não é à toa que o amor, nos dias atuais, é visto praticamente como sinônimo de uma trepada sem compromisso. Seja nas cantigas reverberadas pelos quatro cantos midiáticos do mundo, seja em muitíssimas discussões eivadas com aquele enjoativo vocabulário acadêmico, o que temos presente é sempre esse mesmo odor hedonista pestilento do admirável mundo novo.

Por essa razão, também, que se insiste tanto na legalização do aborto e bem como da eutanásia, para transformar a vida humana num meio, num instrumento nas mãos de terceiros, não mais reconhecendo-a como um fim em si mesma e, tudo isso, acaba sendo sempre defendido em nome do melhor interesse da humanidade, não dos indivíduos, nunca da pessoa humana, tendo em vista que o intento é coisificar a vida para que sejamos meros autômatos e que jamais ousemos ser autônomos.

Há muito mais para que dizer a respeito do cenário distópico que estamos vivendo hoje em dia, refletindo à luz das palavras desses dois grandes escritores. Com toda certeza há. Todavia, muito mais importante que deitar as vistas nas linhas de minha lavra é debruçarmo-nos pacientemente nas laudas confeccionadas por Orwell e Huxley; ou, se preferirmos, podemos ignorá-las e continuar repousando “criticamente” em berço esplêndido como se tudo continua-se como dantes nessa terra de Abrantes.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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