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Opinião
22/02/2021 - 06h40
Na cova das lagostas
Dartagnan da Silva Zanela
 

Já faz algum tempo, creio que uns doze anos, que um velho amigo meu, chamado Daniel, havia me contado uma historieta que circulava no meio habitado pelos “sinhôs dotôs”. A historieta era mais ou menos assim: em algum lugar da vastidão celeste havia um anjo que estava um tanto acabrunhado. Um serafim, vendo-o em agonia, chegou junto dele para assuntar. “Salve Anjo velho”! “Salve seu Querubim”. “Por que você está, assim, tão apoquentado, arrastando as asas”? “Você não viu”? “Não vi o quê”? “Deus”! “O que tem Ele”? “Ele anda se achando demais, você não acha”? “Ué, mas Ele é Ele. Onipotente, Onisciente, Onipresente”. “Não, mas Ele está diferente. Está se achando demais”. “Como assim”? “Ele está pensando que é um ministro do STF”.

Na época, quando meu querido amigo havia me contado esse gracejo, não havia achado que o causo fosse, assim, tão engraçado; hoje, menos ainda, tendo em vista todos os acontecimentos que envolveram o deputado federal Daniel Silveira que, por sua vez, foi a cereja do bolo pútrido confeitado com as inúmeras estripulias, políticas e jurídicas, que vinham sendo feitas por alguns lagostíssimos togados.

E vejam só: não é uma questão de concordarmos com o que o referido parlamentar declarou, nem de assinarmos embaixo das palavras que ele parlou. A questão é acharmos bonito e democrático calarmos alguém porque simplesmente temos meios para fazer isso à margem do bom senso e ao arrepio da lei.

E lembremos de uma coisa importantíssima: o fato de não concordarmos com alguém, ou de sentirmo-nos indignados com o que alguém declara não nos autoriza calar o autor das opiniões das quais divergimos e que, porventura, possam nos causar indignação (excetuando, é claro, os casos previstos em lei). Aliás, já pensou se Deus agisse tal qual um lagostíssimo ministro do STF frente às inúmeras ofensas que são proferidas contra Ele? Já pensou nisso? É por isso que, como disse o Papa Francisco no primeiro dia do seu pontificado, o mundo só existe por causa da misericórdia de Deus.

Voltando ao ponto, não precisamos concordar com cada uma das palavras que o senhor Silveira disse em seu vídeo para defender o direito dele se manifestar; também não é necessário que apreciemos a forma como ele fez isso. Na verdade, devemos defender o direito de ele dizer o que pensa justamente por não concordarmos com todas as palavras que ele proferiu e por não nos sentirmos confortáveis com a forma como ele o fez, principalmente os lagostíssimos togados deveriam garantir que ele, o deputado, pudesse fazer o que fez, pois, tal garantia, em épocas um pouco mais divertidas, era entendida como liberdade de expressão.

E o engraçado é que a única coisa que se fala na grande mídia é que o tal deputado, que mais parece um cosplay careca do Conan, teria realizado um “ato antidemocrático” por meio de um “discurso de ódio”.

Pois é. Sempre a mesma lenga-lenga. Uma lenga-lenga calculada para censurar todo e qualquer desafeto político, calando-os e fazendo-os parecer criminosos por terem dito o que supostamente não deveriam ter dito.

Abre um parêntese. Seja como for, seja onde for, um censor que se preze sempre faz o censurado parecer um transgressor, uma pessoa odienta, abjeta e perigosíssima. Fecha parêntese.

Mas há algo que foi dito pelo deputado que, penso eu, deveria ser destacado, mas não o foi. Ele desafiou os lagostíssimos togados. Desafiou-os não para um duelo, nem para uma queda de braço, muito menos para uma luta de MMA. Ele os desafiou para um debate sobre direito e filosofia do direito. Fato esse que foi varrido para debaixo do tapete midiático, todavia, seria interessante ver um deputado e um ministro, com “notório saber jurídico”, cara a cara, sem assessores e sem cortes, debatendo algo.

E tem outra: se eu fosse um parlamentar – e, graças ao bom Deus, eu não sou – teria destacado esse fato na tribuna do Congresso Nacional e, principalmente, teria lembrado que os supremos, ao que parece, preferem trocar "figurinhas democráticas e iluministas" com o Felipe Neto.

Diante disso, sou obrigado a concordar com Lula, quando esse senhor havia dito que os membros da Suprema Corte são todos acovardados. É Lula. Você estava e está certo.

Outra coisa que poderia ser feita: uns duzentos, ou trezentos deputados federais, e mais uns pares de deputados estaduais, poderiam, como sugeriu o escritor Flávio Morgenstern, gravar um vídeo lendo um texto, com as mesmíssimas palavras que foram ditas pelo deputado Conan Daniel, só pra ver se os lagostíssimos iriam prendê-los também, democraticamente, com um "mandado de prisão em flagrante” com base na Lei de Segurança Nacional, agindo ao mesmo tempo como vítima, acusador e julgador. Pois é. Mas isso não aconteceu e, creio eu, não acontecerá.

E, mais uma vez, digo e repito, que não preciso concordar com tudo que o senhor Daniel Silveira disse, nem aprovar o que ele fez para defender o direito que ele tem de dizê-lo e fazê-lo, mas é preciso ser muito caipora para ficar batendo palminha para essa opereta bufa que foi armada pela suprema tirania federal dos vetustos crustáceos decápodes.

Por fim, certa feita o escritor italiano Luigi Pirandello havia indagado: vassuncê tem ideia de quanto mal nós fazemos por causa dessa maldita necessidade de falar? Não sei. Mas não deve ser pouca coisa não. Porém, esse mal é muitíssimo menor do que a desgraça que é causada por essa amaldiçoada mania de silenciar a voz outrem, ao som das palmas que são batidas para festejar o ato de calar.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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