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Se você chega em Ilhabela e fala em pensar grande, a maioria das pessoas imagina um shopping center, um hotel de nível internacional ou a realização de eventos grandiosos. Questionadas sobre isso, essas pessoas dirão que tais coisas são boas porque impulsionam o progresso, colocam em destaque aquilo que de fato o simboliza: o comércio, a urbanidade, o desenvolvimento. Estas coisas fazem a vida acontecer e onde a vida acontece as colunistas sociais têm emprego garantido, os políticos falam de boca cheia e as pessoas orgulham-se de coisas abstratas, como "a minha terra". Poucas pessoas percebem, mas o fluxo constante de turistas, a maquiagem urbana, o vai-e-vem dos petroleiros, a popularidade como virtude, a cultura de eventos e as festas dos sábados, o tédio, o stress e a depressão, até mesmo os constantes lançamentos de carros e de eletrônicos, todas essas coisas têm um elemento em comum. Para as pessoas que as prezam, estas coisas são "pensar grande" - palavras de quem defende novas rodovias no litoral norte, de quem lança um novo modelo de carro descartável e de quem procura os flashes das câmeras. Isso é pensar grande: crescer como um bolo, de dentro para fora, como se o mundo não observasse limites para o crescimento e fosse, todo ele, lycra lasseada. O modo como esse ideal preencheu cada cantinho de Ilhabela explica o sumiço de algumas coisas, pessoas e lugares. Quando criança me acostumara a ouvir os grilos à noite. Hoje quase não se ouvem grilos. Dependendo da época do ano, ouve-se música ruim de carros e casas locadas para veraneio. Dependendo do local, ouvem-se gritarias e palavras que não podem ser reproduzidas aqui. Não digo isso por saudosismo. Pouco me preocuparia com o passado se o futuro e o "pensar grande" trouxessem de fato coisas boas para a cidade. Mas para cada grande empreendimento a violência urbana, a poluição e a ignorância sobem alguns pontos percentuais. Pensar grande custa caro e menospreza quem pensa pequeno. Pensar pequeno é, diante da realidade que me é mostrada, empreender jornadas individuais, pensar no crescimento de fora para dentro, estudar e educar, preservar em vez de substituir, caminhar sempre à frente sem atropelar. Não se faz mais isso, é fácil perceber, pois não existe mais o senso de responsabilidade que se exigia de quem havia decidido pensar grande. Aliás, não há mais senso. E quando há, ele corre o risco de ser exterminado pela horda de imoralistas que conduz o país a lugar nenhum. O mais interessante é a fraqueza daqueles que percebem tais coisas. Os sábios de hoje - os últimos expoentes do "pensamento pequeno" - são cúmplices da ignorância. Quando pessoas esclarecidas vêem o atual estado de coisas e o aceitam, pode-se pensar em duas coisas: 1) essas pessoas não são assim tão esclarecidas; 2) essas pessoas encontram algum tipo de benefício ao deixar as coisas como estão. Eis a cumplicidade. E logo essas pessoas também estarão pensando grande, engajadas em grandes "empreendimentos para o desenvolvimento do litoral norte" (reparou como isso soa político?). Esse comportamento é um tipo de desonra, um virtuosismo de conveniência, um apreço momentâneo à moralidade, que dura até que chegue uma nova horda e arrebate todos os corajosos que sobreviveram ao arrebatamento anterior. Não sei quando virá a horda definitiva - um novo empreendimento, uma nova moda, um novo projeto-para-o-povo -, mas sei que ela virá. E eu espero estar longe daqui nesse dia. Não me agrada viver num lugar carcomido por pessoas que só sabem pensar grande.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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