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Opinião
16/09/2021 - 06h14
A lei de ferro da panela furada
Dartagnan da Silva Zanela
 

Eu sei, você sabe, todos nós estamos carecas de saber que, no mundo contemporâneo, praticamente todos se auto proclamam figurinhas tremendamente democráticas e que, por certo e por óbvio, totalitários, para tais figurinhas carimbadas, seriam todos os outros que não são, assim, tão democráticos quanto essas presunçosas caricaturas [depre]cívicas se consideram; digo, que não são democráticos como elas “verdadeiramente” o são.

Dito de outro modo: da mesma forma que o Rei Luís XIV (1638-1715) havia dito que “o Estado sou eu”, do mesmo jeitão que a sua Majestade Imperial Dom Pedro II (1825 - 1891) disse, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro que “a ciência sou eu”, hoje, não são poucas as figuras, togadas ou não, investidas ou não de algum poder temporal, portando ou não um diploma de alguma nulidade especializada, que batem no peito e, em alto e bom tom, dizem aos quatro ventos digitais que “a democracia é nóis mermo”.

Como bem nos lembra os mantenedores do canal “Os Brasileirinhos” - o senhor “Gathom” e o doutor “Pagliacci” - não vai demorar muito para vermos casais recebendo visitas de seus amigos em casa, após o nascimento do seu primeiro filho, onde os visitantes, muito simpáticos e com aquela cara de pastel, irão dizer: “Nossa! Que criança linda! Ela tem uma carinha tão democrática! Provavelmente quanto crescer ela será uma árdua defensora do Estado Democrático de Direito”.

Pois é, e não dá para fazermos muitas piadas sobre o assunto não, porque, “sacumé” que são as coisas aqui nessas terras de Botocudos: é uma e duas e aquele gracejo hiperbólico de ontem, do nada, pode aparecer diante de nossos olhos como realidade.

Voltando ao ponto onde havíamos parado antes desse desvio, o fato de vermos multidões e mais multidões proferindo declarações de autoafirmação de bom-mocismo politicamente correto não as transforma, de jeito maneira, na quintessência da harmonia e da perfeição. Não mesmo.

E não digo isso por sacanagem, ou por mera manifestação de sadismo. Digo, porque não procuro, jamais, apagar do meu horizonte de consciência o fato de que toda e qualquer sociedade - repito, toda e qualquer sociedade - se vê mais ou menos regida pela “lei de ferro das oligarquias”; muito mais por essa do que pelo império da Lei que baliza o equilíbrio entre os interesses conflitantes por meio de um sistema de pesos e contrapesos.

Explico-me: no começo do século XX o sociólogo Robert Michels publicou a obra “Partidos Políticos” onde o mesmo nos ensina que há em toda sociedade uma tendência à formação de uma elite, ou de uma vanguarda, ou de uma panelinha de mafiosos, enfim, de uma oligarquia que, inevitavelmente, irá governá-la.

Uma oligarquia encastelada no poder pode, obviamente, ser destituída de sua posição de mando, porém, todavia e, entretanto, ela apenas poderá ser escorraçada por outra oligarquia que, obviamente, acabará ocupando o lugar da anterior.

Tal observação feita pelo referido pensador alemão não é apenas válida para a compreensão da maquinaria Estatal, ela também revela-se muitíssimo útil para compreendermos as relações de poder que se fazem presentes em muitíssimas formas de organização humana, desde uma associação comunitária até a estrutura organizacional de uma empresa.

No bojo de qualquer organização - mesmo que essa seja democrática - há uma tendência inevitável para algum grau de centralização do comando e da organização, não tem lesco-lesco.

Onde há organização, há a formação de um núcleo que ordenará tudo para a realização de um determinado fim e, como em toda sociedade há sempre algum tipo de organização, por mais caótica que nos parece, é inevitável que em seu âmago se forme, também, grupos de pessoas que irão almejar estar no centro dela, que irão batalhar para formar ou integrar uma oligarquia e, assim, poder ter acesso a um quinhão dessa esbórnia toda.

Por essas e outras que, das mais diversas formas e intensidades vemos a classe política existindo, de certa forma, à parte da sociedade e, por isso, não é à toa que os eleitores se veem muitas vezes subjugados aos eleitos, não é por acaso que muitos mandatários e governantes se servem dos seus cargos ao invés de servir aos cidadãos e à sociedade, por estarem a ocupar este ou aquele cargo junto à maquinaria Estatal.

Aliás, é bom lembrarmos que uma das promessas feitas pelos marxistas antes de terem chegado ao poder na Rússia, e em outros recantos tristes do mundo, era a de abolir essas distinções e edificar uma sociedade sem classes, ou organizada de forma horizontal, como muitos gostam de dizer atualmente.

Porém, as promessas lindas e fofas do profeta barbudo de incontáveis furúnculos revelou-se uma tremenda furada. Onde quer que eles tenham ascendido ao poder o que se viu não foi a abolição gradativa de todas as classes, mas sim, a formação de uma nova classe privilegiada que assumiu o papel de uma casta dirigente que, sem o menor pudor - porque pudor é coisa de burguês reacionário - passou a subjugar todos os seus governados, reduzindo-os a reles instrumentos nas mãos do Estado para a realização das metas totalitárias do Partido.

Foi assim na extinta URSS, é assim em Cuba e similares, e não é de modo diferente dentro de um sindicato ou de um movimento social.

Abre parêntese: e por essas e outras razões que a elite marxista, em alguma medida, consegue manter tão boas relações com as elites fisiológicas. Oligarquias defrontam-se umas com as outras, mas também, dependendo do contexto, se acertam e se entendem umas com as outras. Fecha parêntese.

Sobre esse triste assunto há duas obras clássicas que merecem ser visitadas pelas nossas vistas e degustadas por nossa alma, mesmo que sua leitura nos cause algum tipo de congestão mental. Refiro-me, especificamente, ao livro “A Nova Classe”, de Milovan Djilas, e à obra “A Nomenklatura”, de Michael Voslensky. Não são livros novos na praça não, de jeito maneira, mas o conteúdo de ambos mantém-se atualíssimo e, ao que tudo indica, suas lições continuarão sendo úteis por muito tempo.

Tendo isso em vista, não temos como não olharmos para os grupos que se apresentam como sendo “a fina flor democrática”, que se arvoram como defensores das tais instituições, como sendo apenas a voz desafinada de representantes, ou de instrumentos úteis, de uma oligarquia que está sentindo seus interesses sendo ameaçados.

E quanto mais alto essas vozes gritam, mais evidente suas reais preocupações se tornam; preocupações essas que nada tem que ver com a tal democracia ou com as suas instituições.

Enfim e por fim, da mesma forma que Luís XIV não ficou mais poderoso por ter dito que o Estado era elezinho, do mesmo modo que Dom Pedro II não se tornou mais sábio porque afirmou que a ciência era elezão, os sujeitinhos que enchem a boca para dizer que estão lutando contra os supostos “atos antidemocráticos” não se tornam super-heróis, com ou sem capa preta, na defesa do Estado Democrático de Direito, ou algo que o valha, por mais que queiram parecer isso.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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