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Opinião
11/06/2004 - 05h05
Confissões de um estreante
Cacá Bizzocchi
 

Os Jogos Olímpicos são um marco na carreira esportiva de qualquer pessoa que trabalhe com o esporte dito amador, hoje chamado olímpico para diferenciá-lo do profissional. E talvez essa conceituação estabeleça o próprio idealismo que não se encontra nos jogadores de futebol e nos atletas das modalidades do showbizz americano e, em contrapartida, faz com que um saltador ou um nadador coloque sua vida em função do objetivo de participar - para alguns, de ganhar - dos Jogos.

Atletas e técnicos acompanham a contagem regressiva para o início das Olimpíadas como o artista plástico aguarda, finalmente, finalizar a obra de arte. Tal qual o compositor estrutura as últimas combinações de notas musicais na partitura e antevê a composição completa. No esporte, o sucesso do produto final não é tão certo quanto a destes dois. Uma combinação de fatores pode levar à superação das expectativas como também à frustração por um desempenho abaixo do sonhado.

E é verdade que se sonha com os Jogos. Às vezes de olhos abertos e outras durante o sono. Melhores são as imagens em vigília, plenamente controladas pelo consciente e conduzidas pelo otimismo e pela vontade própria. Durante a noite, os medos e receios podem invadir os sonhos, que começam positivos, e transformá-los em pesadelos. Nestes, a medalha de ouro vira vexame, transforma-se em ausência por causa do atraso do ônibus que levaria a equipe ao ginásio de jogo ou de alguém que nos esqueceu trancado dentro do alojamento.

Já os devaneios vêm ornados com os louros dados aos vencedores desde a Antiguidade. Durante os treinos, um rali bem jogado, com defesas espetaculares e ataques e bloqueios se sucedendo com qualidade me levam a transformá-lo no último ponto da final olímpica do voleibol feminino. A comemoração vira festa pela conquista da medalha de ouro e o ginásio do Alphaville Tênis Clube vira o ginásio de Atenas.

Desde o começo dos treinamentos em abril, a diferença de comportamento e determinação em relação ao início de preparação do ano passado é flagrante. A postura e as atitudes de cada atleta são mais marcantes. Com a composição completa do grupo em maio, essa constatação tornou-se mais consistente. O foco é levado até mesmo à despretensiosa brincadeira de aquecimento denominada manchetão - jogo entre duas equipes que só podem tocar na bola uma vez e sempre em manchete. A divisão das equipes é baseada na experiência olímpica - de um lado sete estreantes e do outro sete veteranas em Olimpíadas.

Durante os momentos de folga ou refeições, a conversa gira em torno de fatos e curiosidades de outras edições dos Jogos Olímpicos das quais cada um participou. Fernanda, Virna, Érika, Elisângela, Fofão e Leila ressaltam a importância da união e da convivência conjunta na Vila Olímpica. Elas alertam as mais novas para o perigo do deslumbramento diante de tanto atleta famoso e de tanta badalação, principalmente por parte daqueles que estarão lá apenas para cumprir o ideal do Barão de Coubertin, o idealizador dos Jogos, de que o importante não é vencer, mas competir. Zé Roberto, Zé Elias e Ricardo Regi lembram de cenas que transformaram favoritos em decepções e zebras em sensações.

Em 1992, fui cortado dos Jogos em Barcelona a apenas três dias do embarque. A seleção masculina treinava em Vitória e o supervisor Sami Mielinski comunicou-me que eu não viajaria com o grupo. A razão era a falta de vagas na Vila Olímpica. Argumentei sobre a possibilidade de ficar fora da vila, o que também foi negado. Poderia ter ido por conta própria, gastaria mais do que tinha, faria dívidas, mas o orgulho e o amor próprio pela desconsideração por todo o trabalho que havia feito ao lado da equipe até aquele dia me impediram de viajar separado do time.

Pedi ao Zé Roberto que me dispensasse, pois não pretendia retornar a São Paulo, de onde sairia o vôo com destino à Espanha. De Vitória peguei outro vôo. Com a frustração, venci a desconfiança de viajar em aviões pequenos e embarquei num Bandeirante para Porto Seguro. Lá fiquei por uma semana, incomunicável com o mundo. Quando retornei à capital paulista, já havíamos vencido os dois primeiros jogos. Assisti à final sentado no chão da sala de minha casa. Quando a partida acabou, chorava ajoelhado e abraçado ao meu irmão. Alegria por me sentir parte de um dos maiores feitos do esporte nacional e frustração por não estar presente. Por essa experiência é que sei o quanto é importante viver cada momento da preparação que antecede a ida de qualquer esportista aos Jogos Olímpicos, e que vale a pena sonhar, pois as experiências podem se renovar com outras vestes, mas jamais se repetem.


Nota do Editor: Cacá Bizzocchi é assistente técnico da Seleção Brasileira de Vôlei Feminino, cursa o último ano da Faculdade de Jornalismo da Uninove e é colaborador da Photo&Grafia Comunicação.

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