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Perdi a conta, mas acredito que há dez dias chove todos os dias em minha cidade. Na memória, o maravilhoso céu azul do Outono ficou esquecido. O que se vê diariamente é um céu cinza, mais obscuro do que escuro. Quando faz silêncio lá fora, eu presumo que a chuva parou. Mal piso na soleira da porta de entrada e escuto os primeiros pingos sobre as telhas de barro. E novamente chove aos borbotões. Recolho-me em meu bunker, à espera de não sei qual São Pedro que nos ofereça novamente a luz do sol. Triste vida a dos homens. Quando as condições do clima convidam a ficar sob os cobertores - e assim tem sido há dez dias - é inevitável ceder à curiosidade, olhar pela janela e saber o que é que tem acontecido lá fora. Surpreendentemente nada parece ter mudado com tanta chuva. Os pássaros continuam chilreando e começando suas atividades pouco antes do primeiro sinal da luz do dia. Noite dessas, quando pedalava sob chuva de volta para casa, vi um gambazinho correndo entre as árvores. Meus cães continuam tentando deixar suas marcas nas pessoas que chegam em casa. O vento sopra, as folhas caem, os frutos crescem. A vida não pára. Curiosamente, a vida das pessoas pára, ou pelo menos muda seu ritmo. Estamos acostumados à proteção e ao conforto. Temos casas, recolhemo-nos aos cobertores para dormir e assim, quando chove dez dias ininterruptamente, a vida torna-se um martírio suavizado com guarda-chuvas, automóveis e recolhimento. Eu tenho o hábito de fazer exercícios no quintal de casa, numa esteira sobre a grama. Na última vez que choveu por tantos dias, perdi a paciência e fui me exercitar sob chuva mesmo. Aprendi algo importante naquele dia: a vida de uma pessoa também podia continuar com o tempo ruim e não havia mal nenhum em resfriar o corpo sob a chuva fina. Não que aquilo tivesse sido um nobre exemplo de integração entre homem e natureza, mas os pés descalços na grama molhada e o dorso nu sob o vento e a chuva expunham meu corpo a uma condição incomum para a maioria das pessoas. Elas recusam a chuva, recusam o mau tempo, recusam o frio e tudo aquilo que lhes afaste da secura e do calor - condições típicas na maioria dos lares. Um dos símbolos da interferência humana é a construção de lugares em que o clima pode ser modificado: chove lá fora, aqui não; lá faz frio, aqui está quentinho. O que muitas pessoas não percebem é que o clima pode ser uma forma de integrar o homem à natureza. Para um país tropical, nós nos preocupamos excessivamente com os dias chuvosos. Talvez porque não soubemos compreender as chuvas - porque insistimos em estimular, com construções irregulares, a erosão causada pelas águas. Também nos incomodamos demais com o calor forte, talvez por causa de nossas roupas, alimentos e atividades. A adaptação custaria pouco, como fazem os esquimós e os tuaregues. Mas, como pessoas civilizadas, sentimo-nos na obrigação de driblar o tempo com aparelhos de ar condicionado e janelas de vidro duplo, grandes coberturas estanques e estruturas nas encostas, refrigerantes gasosos e todo tipo de tecido sintético. O prazer de integrar-se às condições do dia não é maior do que o prazer de desafiá-las com artifícios. Sabemos a que essas coisas conduzem. Numa escala urbana, podemos ver o eterno duelo entre enchentes, tráfego e engenharia - e também o desespero da Defesa Civil em épocas de muita chuva. O que acontece com uma única pessoa acontece também com toda a cidade, embora esse fato não seja suficiente para que uma ecologia humana torne-se um pressuposto para urbanistas, arquitetos e engenheiros. Infelizmente uma mudança mais ampla dependeria de políticos, de executivos públicos e de grandes empresas. De minha parte, prefiro sair à chuva quando chove, transpirar quando faz calor e andar descalço onde o chão não é impermeável. Ainda que a cidade convide ao recolhimento e ao desafio à natureza, tem sido mais prazeroso ir numa direção diferente. Talvez a cidade ganhe algo com isso.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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