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A mais nova campanha antidrogas exibe vários calibres de canos, representando armas de fogo, com texto de racionalidade evidente, alertando para o fato de que o consumo da droga fornece os meios para aquisição de armas de onde sairão as balas que, perdidas ou não, irão desgraçar nossos lares. O apelo sensibiliza pela realidade da relação causa e efeito, como sensibilizam as propagandas anteriores sobre seringas descartáveis, camisinha, da mão espalmada etc. O cunho dessas campanhas, que é genérico, busca atingir a consciência através da racionalidade e, nesse sentido, não existem reparos a considerar. Todavia, desde logo devemos reconhecer que o usuário da droga, movido por irresistível compulsão, não se apresenta racionalmente habilitado para desenvolver o silogismo que a campanha pretende. Quanto às pessoas não viciadas os quadros escolhidos são de evidente desnecessidade, pois, não existem aficionados temáticos do consumo de drogas. Dirigida aos viciados, a campanha perde-se pela irracionalidade de seus próprios destinatários. O problema, porém envolve questões mais profundas que interessam ao âmago da mente humana, já que o drama se desenvolve além, e independentemente, do aspecto social, econômico, familiar, religioso do meio em que o viciado orbita. Lares desarmônicos geram drogados, o que ocorre igualmente com lares harmônicos; Famílias paupérrimas têm o problema que aflige, também, as famílias abonadas; A questão racial, de igual modo, não seleciona a incidência do flagelo; As práticas religiosas, por sua vez, também não gozam de isenção quanto ao assunto; Não tendo como causa determinante exclusiva qualquer das exemplificadas, nem mesmo o conjunto de algumas delas, como, ainda, sua própria totalidade, o problema das drogas deve ser encarado, equacionado e tratado dentro de um espectro individual através do qual será apurada a possível causa determinante do desvio de conduta que leva á dependência compulsiva. Inicialmente, podemos eleger a necessidade de fuga de angústias e ansiedades psíquicas como fator comum, presente em todos os casos de dependência tóxica, incluídos na prática o álcool e o tabaco. O efeito euforizante, como fator de coragem psíquica e agilidade mental, permite enfrentar a sensação de desconforto gerada pelo sistema psíquico em razão da impossibilidade da fuga por outros meios. Observando o viciado, quando sóbrio, verificamos momentos de arrependimento autêntico e a consciência do problema e de sua gravidade. Todavia, invariavelmente, o problema psíquico subjacente volta à superfície e provoca, novamente, as pressões que obrigam à derivação que a droga proporciona. Que problemas seriam esses? Os estudos psicanalíticos têm revelado, desde Freud, que as angústias e ansiedades de origem desconhecida, derivam de culpas inconscientes que armazenamos no correr da vida, desde a mais tenra infância, e que permanecem nos recônditos da mente. São dramas pessoais que o subconsciente esconde por entendê-los inconfessavelmente graves no momento de sua remota ocorrência, motivo pelo qual devem ficar escondidos para sempre. No desenvolvimento dos estudos a respeito do "complexo de Édipo", que reconhece a presença de elementos de amor físico entre a criança do sexo masculino e sua mãe, aventa-se a hipótese de que, vendo seu pai acariciar a mãe, o menino fica com ciúmes e pode chegar a desejar a morte do rival, ali seu pai. Aparentemente insignificante, o fato fica gravado na consciência incipiente da criança como um pecado inominável: desejar a morte do próprio pai. Já adulto e abafado esse grave fato pela consciência, permanece no inconsciente a sensação de culpa, causa de recorrente mal estar psicológico, depressão, pânico e outras manifestações do psiquismo profundo. A discutível moralidade religiosa, criadora de pecados sobre atos instintivos e naturais como aqueles derivados da sexualidade, leva o indivíduo, nos primórdios das descobertas existenciais, à pratica de atos "condenáveis" como masturbação, ímpetos da luxuria e uma infinidade de outros "pecados" convencionais. Essa culpa recôndita é responsável pela auto flagelação e, até mesmo, a autodestruição, exteriorizadas pelo indivíduo através de comportamento deletério em busca de um fim doloroso, compatível com o grau de sua "imensa culpa". Sem coragem para o suicídio ostensivo, procura o fim pela via do sofrimento através de castigos cruéis como a droga e o álcool. Quem já teve oportunidade de ver um dependente em fase final de deterioração física e moral não pode negar que tenha sido submetido a um longo e doloroso processo de autodestruição. A vontade inconsciente de morrer de modo degradante e doloroso fica evidente. Em busca de tal forma de destruição, o viciado recebe as campanhas que referem a morte e o sofrimento físico e, principalmente, moral, como uma maneira de resgatar sua culpa e colocar fim a uma existência "pecaminosa". As campanhas "contra", assim recebidas pelos dependentes em busca de autodestruição, transformam-se em campanhas "pró", pois, realçam as qualidades da seringa comum e da ausência de camisinha como meios de alcançar o seu funéreo objetivo.
Nota do Editor: Homero Benedicto Ottoni Netto, advogado, juiz de Direito de São Paulo, aposentado e Coordenador da Comissão de Prerrogativas da 69ª Sub Secção da Ordem dos Advogados de Brasil - Atibaia.
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