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Nossa Ubatuba é tão elogiada, em versos e prosa, por suas muitas e variadas belezas naturais, que sinto-me até temeroso de acrescentar alguma. Refiro-me aos "belos" buracos em nossas vias públicas, que as estão tornando excentricamente características de nossa linda cidade, esses buracos tão "lindos" em seus contornos e variados tamanhos, em profundidade e alternância, na intensa riqueza de suas ocorrências e na variedade de contornos que apresentam. Alguns chegam a ser tridimensionais - uma lasca de asfalto que se desprendeu, depois uma depressão mais profunda e por fim uma cratera que, ao cair da chuva, inundam-se transformando nossas ruas numa "fascinante" miniatura do pantanal matogrossense - uma seqüência de lagoinhas que cintilam ao sol e que respondem com um "splash" ao passar dos inoportunos pneus que erodem seus contornos, desrespeitando sua "beleza natural". Poucas cidades, que se titulem turísticas, podem ostentar essa "beleza", tão intensa na profundidade e tão extensa na variedade. Dizem, todavia, que a beleza é simplesmente a constatação de olhos virtuosos. Vê-se belo aquilo que se vislumbra belo. Nesse contexto, os olhos ubatubenses estão acostumados a ver outras belezas grandiosas: no inigualável despontar do sol, surgindo de dentro do mar, na enseada do Itaguá; no artístico delineado desta Serra do Mar que nos confere uma moldura de belos contornos e relevos; nas folhagens das milhares de variedades de árvores de uma das mais belas florestas do mundo como que a adornar, como um grande vaso de plantas, o "hall" de entrada deste município; no mar de azul tão intenso que a decantada "cóte d´azur" é tom esmaecido; na fauna, cujos pássaros em caravanas cruzam o céu despertando-nos pela manhã com trinados e gorjeios que só no paraíso perdido puderam ser ouvidos; no colorido de variados matizes de nossos manacás que despontam seu individualismo em nossas matas em janeiro e fevereiro e nas quaresmeiras que assumem o tom mais azulado na seqüência, vindo, após, os ipês amarelos e roxos, as paineiras rosas cujas flores se desfazem ao vento pavimentando nosso chão, enfim, múltiplas cores que se alternam até a chegada do inverno frio e seco. Onde haveria de existir beleza tão grandiosa? Por isso é que, na realidade, choca-nos ver estes profusos buracos, pois, temos olhos acostumados à mais inebriante fragrância, à mais harmoniosa sonância, à mais pitoresca alternância, à mais intensa ânsia que o belo e o fantástico suscitam na criação deste cenário idílico. Que "lindos" buracos? Será que, de fato, podem-se integrar à pujança de tanta beleza circundante? Por fim, ao rodar por entre, por sobre e por dentro desses buracos, quão perceptível se torna a sustentável leveza do ser...
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