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Crônicas
19/06/2004 - 10h03
Antologia do eu e outros discursos
Eliana de Oliveira
 
"Conhece-te a ti mesmo" - Sócrates

Não era assim nenhum paraíso aquele país, ele sabia. Bastava passar os olhos por qualquer jornal e se era invadido por uma onda de impotência. Soluções inatingíveis, dinheiro difícil de ganhar. Crise. Crise mesmo. Sair de uma cidadezinha do interior e ir morar na grande cidade, na capital, para, como se diz, "melhorar de vida", era já tão comum e parece que todo mundo pensava a mesma coisa e ao mesmo tempo que não dava mais certo. Estava distraído a olhar a manhã que se avolumava nos transeuntes, no cheiro dos pastéis fritos na calçada, nos gritos atordoantes dos camelôs. Era já um homem de pouco mais de quarenta anos, politizado, achava, quase que culturalmente bem informado - exceto pela contemporaneidade das várias artes que intimamente não entendia, ou melhor, entendia, mas achava tediosa, grotesca, violenta.

Lembra-se de algo escrito ou cantado com o termo "pardais urbanos". Eles estavam ali, comendo as migalhas, alheios, aos seus pés. Quase que já não tinha tempo ultimamente de percebê-los, eles faziam parte da paisagem e eram tantos que se misturavam a todas as coisas comuns. Será que tudo ficaria assim, comum? Os rostos, estes eram incomuns, expressavam a seu jeito a mistura milagrosa e linda da raça Brasil: loiros e morenos, ou meio termo, ou negros, ou nada. Ele mesmo era descendente de italianos e, em verdade, todos os brasileiros o são de uma forma ou de outra, dessa raça ou daquela. O que emocionava tanto nas ruas da cidade de São Paulo, ou em qualquer cidade do Brasil pela manhã, era aquele cheiro de café que invadia as narinas e que era irrecusável, impossível de resistir, misto de história e de fato, que nos empurra à primeira padaria que aparece a tomá-lo quase com devoção, ensejando o começo do dia. E era tudo como café: exposto. Em cheiro, em alegria, em tristeza. Não se tinha pontualidade britânica, nem educação européia, nem história cultural propriamente dita, ou coisas assim ditas de vital importância à calma da existência. Acontece que neste país nada é calmo, ao contrário, vive-se no frenesi, com toda a adrenalina, o sangue correndo latejante e vertendo, cheio de vontade, o sorriso fácil, o coração agüenta! É a vida multiplicada por muitas, como muitas ela é em cada cidadão. Mais do que cores, carrega-se nas costas verdadeiros "dragões da independência", os próprios dragões de nós mesmos, cada um com o seu, tracejando sua linha indivisível e escrevendo mapas nas encostas do morros, nos ônibus cheios, nas filas e no arrependimento mortal do silêncio. Será sempre assim? O mundo virou o século, toda cautela é pouca, afinal existem profecias tão especiais e estamos tão acostumados e apegados à vida. A vida com seu brilho luzidio, metálico por vezes, ou, na maioria das vezes. Um povo se reparte das necessidades e infelizmente, pensava ele, só divide as dores, as catástrofes, as grandes e irreparáveis perdas. Quando jovem, achava que o planeta na sua proporção geográfica era infinito, insuperável, imenso. Pensava que talvez, nunca conseguisse entender, porque as coisas podem ser tão maiores do que os olhos as possam ver. Entendera talvez mais tarde, que o próprio coração abarca as distâncias, com braços e olhos infinitos, entende-as e se constrange. Hoje, adulto, ainda não entende outras distâncias, a indiferença e a falta de tudo em cada homem ou mulher a transitar ali mesmo à sua frente. Deve ser parte desta nação, desta classificação terceiro mundista que deram a países como o nosso, pensa, semi-ocupados, semi-industrializados, semi-plantados, repleto de crenças, sambas, carnavais, sangue, areia e esperança. Resíduos de colonização, de escravidão e saques históricos da dignidade cidadã. Sempre gostara de cachorros. Aquele que o olhava agora era absolutamente independente, pulara de um lado a outro, ao seu redor, pedindo, até que lhe serviu um naco de sanduíche e ele apaziguado, saiu correndo em direção à rua. Pensou que a vida era simples assim. Sentara-se. Nada existia de mais digno a uma pessoa, pensava, do que alimentar-se com regularidade e há os que se alimentam de espera. Talvez o burburinho do dia nos impeça de ver e ouvir as nossas próprias necessidades. Trabalhara muito, fizera greves, criticara o governo e os liberais. No entanto, este é o processo comum a todos os homens, que como ele, num determinado momento redesigna sua meta, reavalia suas expectativas se descobrindo de novo num suposto ponto de partida. O sol banhava as ruas da cidade, indeciso entre uma sombra e outra, recortando-se por detrás dos prédios, incandescente. Talvez um pouco de rebeldia, existia muita sobriedade nos dias de hoje. Ouvira falar de multidões que em uníssono demonstrava seu sentimento partido, à espera, sempre à espera. As grandes cidades têm e dão a sensação grotesca do sentido cinza da solidão, algo que gela o coração nos fins de tarde ou nas madrugadas. Houve tempo em que não conseguira dormir e olhava pela janela, calado e perdido na imensidão da noite, uma noite triste, pontuada de luzes e fantasmas, infinda. Achava que independente das caras do dia a dia, cada uma pessoa ao se encontrar sozinha e em silêncio, recordava-se de si e se visitava. Percebia as diferenças, lembrava-se do salário, das contas, da casa, do corpo, do amor, da alegria. Existe uma grande possibilidade em nos esquecermos da nossa própria vontade, pensava, enquanto buscamos nos adaptar a tudo e todos. Gostava do Brasil, gostava da pele morena nacional e de como tudo fervia nos diversos verões desta terra. O motivo pelo qual tudo se confunde às vezes, o questionamento e a insatisfação, tudo é construído ao longo do tempo. Sente como se fosse uma aprendizagem dolorida, as informações vão se avolumando, as perguntas surgindo. Era apenas um homem e pensava se os outros, mulheres e homens e pessoas, também se detinham a questionar. Achava que havia uma grande quantidade de carros a circular, talvez mais carros do que ruas. Lembra-se que gostava de passear a pé pelo centro. Era bom e gostoso, as pessoas andando, olhando vitrines, sonhando com o básico. Saíra aquela manhã insatisfeito. "Ó Pátria amada, idolatrada, salve, salve!", salve-se. E se salvar significava um grito. Abominava toda forma de violência, acreditava na palavra, mas, era a escassez do uso da palavra, que ao seu ver, causava este mal estar, ou, a palavra usada como lâmina, que corta os sentidos da própria palavra e lhe dá duas faces, duas alternativas, duas chances de erro. Quando lhe vinha este sentimento, revoltava-se em pensar, pois que todo sentido é muito simples, não fosse a visão absolutamente particular ou voraz deste ou daquele, imedido na ânsia de um poder obsoleto, pagão, antigo. Tentava salvar-se. Tentava salvar o dia que se arrastava infinito. O dia, ali, era contado dia útil. Útil. O sentido da utilidade também fora dado ao dia urbano, diferentemente do tempo longo que representa o dia em relação à própria vida. Os aniversários. As próprias independências. Cinicamente, os dias úteis nos utilizam, devoram-nos, arrebatam-nos as horas, nós mesmos, e, tão sutilmente, que nos sentimos necessários, importantes e donos. Os sapatos batem em compasso nas calçadas, caminham diferenciadamente para vários lugares, à espera do passo final que os levem à casa, à cama, às televisões, filhos, mulheres, amantes, ponto de ônibus.

O dia o persegue. Faz-se sombra às suas costas a lembrar-lhe das horas. Sente a alma e o estômago vazios, os olhos a perderem-se, olhando sem ver, perseguindo a duplicidade das imagens. Duas versões. Ele mesmo é dois e por esta razão se debate tentando achar-se, entender-se, recriar-se. Sente-se como a flutuar entre vontades, entre os desejos, por sobre a cidade. Nas cidades do interior têm-se uma visão própria do mundo e das realidades dele, considera. Têm-se o pensamento como forma de criação. Persegue-se as novidade na televisão ou em jornais porque as cidades do interior vivem suas próprias verdades. É difícil incorporar as próprias dores, práticas e modos à imensidão de um país, do que seja estar ou pertencer a ele. São as cidades grandes, com seus gritos, seus desassossegos, e suas atualidades que nos jogam de frente com a parte que nos cabe. Assim é que o sentimento que agora o tomava era um sentimento de angústia. Este sentimento era a reação emocional típica de seu estado geral, quase que sentia o corpo parado a espera de uma ordem súbita: mexa-se! Estava inconformado. Bastava de discursos e promessas, de hipocrisia dosadas e sentimentos pseudocoletivos. Queria a plenitude para si e para quem fosse, a divisão exata, o comportamento cru da verdade e o compromisso único e simples de existir. Para um único ponto que se representa quando se é humano, a beleza e a integridade. Conviver com cada pessoa e consigo mesmo - este é o ponto - conviver. Aceitar cada pensamento, cada atitude, trazê-los para si e mastigá-los. Independente do poder, de política, de solidão, de amor, de desigualdades. Mas, acima de tudo, fazer com que permaneça dentro de si mesmo o sentimento primário, o mais verdadeiro, o único responsável pelas ações. Findava o dia. Ônibus lotados carregavam expressões cansadas, dormidas. Grupos aqui e ali pelos vários pontos do metrô, trânsito difícil, congestionado, bares cheios. Sexta-feira. Fim de semana. "Dos filhos deste solo és mãe gentil..." Caminha só pela rua, pela calçada, olha ao redor acostumado, procura um cigarro, acende-o e traga forte, a fumaça se emaranha à sua frente, tudo se confunde na névoa, tudo parece frágil, tudo parece velho, tudo parece sonho.


Nota do Editor: Eliana de Oliveira nasceu em Ubatuba e estreou a mostra de seus trabalhos aos 15 anos integrando o grupo poético "Rumos e Rimas". Foi gerente do Grupo Setorial de literatura da Fundart (Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba) por 3 anos, editando a primeira antologia de contos do Concurso de Contos Washington de Oliveira, o qual idealizou. Tem vários trabalhos publicados em jornais e revistas da região.
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