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COLUNISTA
Rodrigo Ramazzini
26/05/2014 - 09h00
Tempo perdido
 
 

Quando o vizinho do Romerito apareceu na rua pilotando uma Kawasaki Ninja, ele que espiava pela janela escondendo-se atrás da cortina, prontamente, teceu o comentário para a esposa:

– Olha lá o Júlio se aparecendo de moto nova. É um palhaço mesmo! Aposto que gastou um dinheirão naquilo... Onde já se viu gastar um monte de dinheiro numa moto, né? Tem gente que não tem nada na cabeça mesmo...

A esposa retrucou com azedume:

– Foi com o teu dinheiro que ele comprou? Não, né? Então, fica na tua!

O conselho da esposa não foi seguido por Romerito, que ao avistar a vizinhança admirando a moto de Júlio, que fazia apenas dois meses que se mudara para o bairro, resolveu se juntar ao grupo. Lá chegando, aproximou-se da roda de pessoas que contornava a motocicleta e logo lascou:

– Bonita moto, Júlio! Porém, aposto que pagou um carro forte de dinheiro por ela, não?
– Ela é bonita mesmo, Seu Romerito! Barata realmente não foi... Mas, era um sonho de consumo que eu tinha... E realizar um sonho não tem preço!
– Imagino... É que eu fico pensando quantas coisas melhores se podia comprar com esse dinheiro, não?
– O senhor até parece um pai dando sermão, Seu Romerito! Até podia mesmo... Mas, eu escolhi comprar uma moto...
– Eu acho que rasgaste dinheiro!
– Eu já acho que fiz um baita investimento!
– Quanto ficares velho, certamente, este dinheiro te fará falta...
– Pode ser que sim, Seu Romerito! No entanto, tenho certeza que chegarei à velhice muito mais feliz por ter realizado os meus sonhos quando novo... Diferente de certas pessoas...
– Isso nós veremos! Veremos!
– O senhor quando era novo conseguistes comprar tudo que sonhara?
– Isso não vem ao caso agora...
– Pelo jeito não... Está com inveja de mim, Seu Romerito?
– Ficastes maluco, Júlio? Por que eu teria inveja de ti, hein? Só porque comprastes uma moto? Estás maluco! Isso sim...
– Eu acho que no fundo, quando jovem, o senhor era louco para ter uma dessas e não conseguiu comprar... E agora projeta esta frustração em mim ao avaliar a minha compra. É isso?
– Era só o que me faltava! Depois de velho ter que ouvir isso...
– Eu pego o capacete ali e damos uma voltinha. Assim o senhor ameniza essa frustração. Queres? Há! Há! Há!
– Não! Muito obrigado. Não respeitam mais os mais velhos mesmo! Eu me vou embora para casa...
– Se trocares de ideia é só avisar, viu? O convite está em pé. Há! Há! Há!
– Tu vais é te matar com essa moto, Júlio! Isso sim! Olha que estou te avisando...

Nos dias que se sucederam a distração de Romerito foi espalhar pela vizinhança a sua opinião sobre a aquisição de Júlio e os riscos à vida que uma moto representava.

– É um absurdo gastar um dinheiro destes numa moto! Sem falar que tu podes te matar a qualquer hora com este trânsito maluco de hoje em dia. Olha... É muito ser cabeça de vento!

A profecia de Romerito aconteceu nove dias depois. Júlio se envolveu em um acidente, chocando-se com a moto frontalmente em um carro, numa movimentada avenida da cidade. Entrou em coma e perdeu muito sangue, o que gerou uma mobilização da vizinhança de Júlio para a doação com o objetivo de repor o estoque do hospital. Até Romerito, mesmo que a contragosto, foi participar da campanha, entretanto, não deixou de se pronunciar sobre o acidente:

– Eu falei que isso iria acontecer! Eu falei...

O grupo de vizinhos aproveitou o dia da doação de sangue para visitar Júlio no hospital. Ele era órfão de mãe e os parentes mais próximos moravam em uma cidade distante a cerca de 500 km. E, foi justamente quando a vizinhança fazia a visitação que apareceu uma tia de Júlio, depois de viajar longas horas de ônibus. Ela chamava-se Glória. Cumprimentou o grupo e fixou o olhar por alguns instantes nos olhos azuis de Romerito, mas não teceu nenhum comentário naquele momento.
Encerrado o horário de visita e a consulta aos médicos sobre o estado de Júlio, o grupo saía pelos corredores do hospital quando Glória chamou Romerito pelo nome. “Como ela sabe o meu nome?”, perguntou-se.

– Tu és o Romerito, né?
– Sim! Como sabes?
– Podemos conversar um pouco? Eu te explico...
– Desde que não demore muito...
– Começarás a ver o tempo de outra forma depois da nossa conversa...
– Vamos ali tomar um café...

Na cafeteria.

– Tu continuas com o mesmo olhar da juventude, Romerito?
– Não estou entendendo. De onde me conheces?
– Não estás lembrado de mim? Eu sou Glória. Tia do Júlio e irmã da Angélica...

Quando o nome Angélica soou no ouvido de Romerito, um mar de lembranças emergiu em seus pensamentos. Angélica fora namorada de Romerito na juventude e o largara para fugir com um motociclista da cidade, que tinha uma moto muito mais potente que a sua à época. Depois de tantos anos, retomar este assunto mexeu com Romerito. Ele fechou os olhos, respirou fundo, ficou em silêncio por alguns segundos e, só então, readquiriu as forças para continuar a conversa:

– Glória... Glória... Como não a reconheci, hein? Você mudou muito com o tempo...
– O tempo não foi generoso comigo como foi para ti, Romerito! Estás com a mesma fisionomia da juventude... Quando foquei o olhar em ti logo o reconheci...
– Que coisa a gente se reencontrar depois de tantos anos... Que coincidência da vida, né?
– Eu não acho que seja coincidência.
– Como assim?
– Acho que é destino mesmo!
– Não entendi?
– Eu te chamei aqui para te contar algo. Acho que chegou a hora...
– Estás me assustando!
– A Angélica morreu...
– Pode parar por aqui se me chamaste para tentar defendê-la após esses anos todos... Eu amava aquela mulher! A mágoa que ela me deixou nunca cicatrizará!
– Não é isso...
– Então, o que é?
– Terás que ser forte!
– Fala logo, Glória!
– Romerito: o Júlio é teu filho!
– Como é que é?
– Isso mesmo! O Júlio é teu filho. A Angélica morreu guardando este segredo. Só eu sabia...
– Tu estás de gozação com a minha cara! Que absurdo isso que estás me contando! Que mentira! Mentirosa! Mentirosa!
– Não é mentira, Romerito! Quando a Angélica te deixou ela estava grávida de dois meses do Júlio...
– Isso não pode ser verdade! Isso não pode ser verdade! Eu não vou engolir esta história assim! Ela sumiu no mundo! Vai se saber o que fez por aí! Eu quero DNA!

Transtornado, Romerito deixou a cafeteria e retornou para casa. Contou o ocorrido para a esposa e passou a maior parte do tempo dos dois dias seguintes trancado em seu escritório. Quando saiu de lá foi para voltar ao hospital.

No hospital.

Era uma tarde fria de quinta-feira. Apesar do horário de visita no hospital, o quarto de Júlio, que permanecia em coma, estava vazio. Romerito entrou e em pé ao lado da cama ficou fixamente olhando-o por alguns minutos. Então, puxou do bolso da jaqueta uma velha foto, em preto e branco, em que ele estava na sua moto, vestindo uma jaqueta de couro preta e com o capacete na mão. Como passageira, trajando um vestido de Poá, a mãe de Júlio. Romerito olhou-se jovem na foto e, inevitavelmente, comparou-se a Júlio. Os longos cabelos iguais, os olhos azuis, o formato do queixo e a paixão da juventude por motocicletas não deixavam dúvidas. Eis que apareceu Glória no quarto e completou a constatação:

– Tu ainda achas que precisas de DNA, Romerito?

Três semanas depois, Júlio saiu do coma e em seguida foi liberado do hospital. Mandou consertar a moto, que ficou danificada em alguns pontos com o acidente. Deverá ficar pronta amanhã e, se não chover, ele e o pai Romerito irão dar uma volta juntos, em busca de recuperar o tempo perdido...


Nota do Editor: Rodrigo Ramazzini é cronista.
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