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COLUNISTA
Rodrigo Ramazzini
07/07/2014 - 11h03
Teoria da Moeda
 
 

– Faremos de tudo, mas, infelizmente, tenho que ser sincero com o senhor e informá-lo que a sua expectativa de vida é de apenas mais um ano – disse o médico.

Alceu descobriu o câncer de pâncreas já em um estágio avançado da doença. Estava entre a vida e a morte. Ironicamente, passara a vida nesta situação de berlinda, como equilibrista de um pequeno circo. E, foi justamente no exercício da profissão, entre o cai não cai do fino cabo de aço, que elaborou a intitulada Teoria da Moeda, que pregava para todos sempre que tinha a oportunidade, em todas as cidades em que passava com as suas apresentações.
A teoria, que lhe resultou no apelido de “Moeda”, pregava que, assim como uma moeda e seus dois lados, invariavelmente, se recebia, no mínimo, uma notícia (qualquer acontecimento era denominado notícia por Alceu) boa e uma ruim por dia.

– Podes notar! É assim que a coisa funciona. Se receberes uma notícia ruim, por exemplo, de manhã, pode esperar que a boa virá à tarde! Se a boa veio primeiro, reza para que a ruim seja fraca... – explicava.

Ainda, completava sem cerimônias ou constrangimentos:

– Pois é, amigo! A vida é como uma moeda. Ou ela te bate na cara ou é gostosa como uma coroa! 

Para tentar comprovar definitivamente a sua teoria, Alceu carregava um grosso caderno, que dividira ao meio e dizia que anotava, diariamente, de um lado as notícias boas que recebia e do outro as ruins. Enquanto estava “pregando” com entusiasmo ficava folheando rapidamente o caderno e se citava como exemplo.

– Desde que fui iluminado com esta teoria, há quatro anos, não teve um só dia em que deixei de escrever nele! Olha aqui, ó! Tudo cheio...

Mas, a bem da verdade, ninguém sabia ao certo o que Alceu escrevia no tal caderno, pois, além de não deixar ninguém tocá-lo, dizia que ele devia ser enterrado junto consigo, porém, apenas depois de ser lido por todos que estiverem em seu velório.

– Eu quero morrer na noite de uma quinta-feira! Assim, meus amigos podem matar o serviço e folgar na sexta-feira para me ver pela última vez! – brincava.

A obsessão de Alceu por tal teoria beirava a loucura e influenciava em seu humor. O pessoal do circo já estava acostumado e quando cruzava com ele estampando um belo sorriso já sabia:

– A ruim já apareceu. Estou só pela “coroa” hoje! – dizia animado.

E a força mental que Alceu desprendia à espera de uma notícia boa, invariavelmente, fazia com que ela chegasse, sem qualquer tipo de escala, fosse por meio de um simples telefonema de um parente distante até a confirmação da gravidez da esposa. O mesmo foco no pensamento acontecia na situação contrária:

– E essa ruim que não chega nunca, meu Deus! – reclamava.

E o anseio sempre chegava, ora por um leve tropeço com o pé direito em uma cama, ora pela notícia do avançado câncer. A mais complexa notícia ruim de todas. 

– Por que, meu Deus? – questionou.

Ao saber da doença, ficou um dia isolado no próprio quarto. Quando saiu de lá, depois do período de reflexão, esbanjava animação e tranquilidade.

– Agora, entendi tudo! Encontrei as respostas que precisava. Elas estão sempre dentro do nosso coração e da alma! – afirmou.

A descoberta do câncer foi o estopim para que se dedicasse ainda com mais afinco a espalhar para o maior número possível de pessoas a Teoria da Moeda.

– Minha última missão na terra! – dizia.

Mesmo em meio ao tratamento da doença, chegou a dar entrevistas a rádios e a uma televisão no interior do Estado falando sobre a teoria.

– Meu próximo passo é eternizá-la em um livro! – anunciava.

Não houve tempo. O câncer venceu Alceu, que morreu em uma quinta-feira, um ano depois de descobrir a doença.

No velório.

Depois dos trâmites normais de um velório e das orações de um padre, um dos momentos aguardados era a leitura do caderno de Alceu, que já conhecido pela teoria e pela sua última vontade, moveu muita gente curiosa à casa mortuária. Com isso, coube a um amigo fazer a leitura em voz alta dos escritos do caderno, já que se ele fosse passar de mão em mão, como queria o autor, o velório levaria dias.
Na capa do caderno, de um tom vermelho desgastado pelo tempo, estava escrito como título em letras pretas “Teoria da Moeda – Notícias boas e ruins – Alceu Silva”. Na primeira folha dizia:

Minhas notícias boas

A vida é feita de altos e baixos. Têm esses dois lados. Ninguém escapa disso. Por isso, relacionei a teoria a uma moeda e me usei de exemplo o tempo todo para provar isso. É uma regra. Tive uma vida humilde, simples, com muitos problemas e desafios, entretanto, de momentos muito felizes e recheados de coisas boas, como vocês podem notar nos meus registros. Tudo é uma questão de percepção e de compreensão do que eu realmente precisava para viver. Tudo é uma questão do que de fato se valoriza.

Abaixo dessa introdução, de forma enumerada, estavam 1460 registros de notícias boas na vida de Alceu, que se estendiam até próximo ao meio das folhas do caderno. Do meio em diante, estava escrito:

Minhas notícias ruins

A vida não é uma balança, em que as boas e más notícias precisam estar em equilíbrio. Notícias ruins são para serem analisadas, compreendidas e transformadas em aprendizado. Não para nos corroerem por dentro e serem lembradas diariamente.

A partir daí, as páginas do caderno seguiam em branco até o fim...


Nota do Editor: Rodrigo Ramazzini é cronista.
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