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COLUNISTA
Rodrigo Ramazzini
06/10/2014 - 15h00
Os descompromissos do amor
 
 

– Não há nada igualável ao brilho dos olhos quando nos apaixonamos à primeira vista, meu jovem! – sentenciou-lhe o avô, batendo-lhe nas costas.

Salomão ainda pensou como o avô descobrira que tal sentimento havia sido realmente despertado dentro de si. Jovem, mal sabia que a alma é refletida pelos olhos.

Esta cena aconteceu no aniversário de quinze anos de uma prima, quando Salomão viu Alice pela primeira vez. Durante a festa falaram-se pouco, apenas uma apresentação formal, mas marcaram de comunicar-se via internet. E foi o que aconteceu. Salomão, tímido por personalidade, preferia expor as suas idéias, seu estilo de vida, por escrito. Dizia ser mais “ele mesmo”, do que pessoalmente, falando. Alice, entretanto, era o contrário, extrovertida, espalhafatosa, popular, falava “pelos cotovelos”.

Apesar de morarem na mesma cidade, falavam-se mais pela internet do que pessoalmente. Passados oito meses, a intimidade era grande. Durante os bate-papos, conversavam sobre tudo, desde os jogos de futebol de domingo até os seus relacionamentos. E foi em uma destas conversas pelo computador, em que Alice contava das suas peripécias junto aos garotos na última balada, que Salomão, em um raro momento de coragem, resolveu declarar-se.

A armazenada paixão explodiu despertada pelo sentimento de ciúmes. Foi um desabafo! De alguém que carregou por meses esse “pesado fardo”. As lágrimas escorriam enquanto demonstrava a Alice todo o seu amor. Surpresa, ela que sempre o tratou como um grande amigo, declarou:
– Não posso Salomão... Somos amigos... Melhor nos afastarmos.

Esta negativa de Alice não foi o suficiente. Salomão, perdendo os traços de timidez, passou, quase de forma doentia, os onze meses seguintes insistindo em ter um relacionamento com Alice. Era em festas, via internet, na rua, em qualquer lugar. Ela não tinha sossego. Chegou a ponto de muitas vezes ter que fugir das suas “perseguições”.

Decorrido este tempo, desiludido por não ter o seu amor correspondido, Salomão em melancólica manhã após ler o horóscopo no jornal, que aconselhava no aspecto amoroso “partir para uma nova aventura amorosa”, tomou uma decisão: não iria “correr” mais atrás de Alice, apesar dos seus sentimentos. Quando ela soube, vibrou: – Finalmente vai me deixa em paz!

Curiosamente, com o passar dos dias, Alice começou a sentir falta de ter alguém no seu encalço, de sentir-se amada. Além disso, a surpreendente notícia do sucesso de Salomão com outras garotas também estava incomodando-a. Questões perturbadoras começaram a transcorreram em seus pensamentos: – Será que gosto dele? Por estar sempre ao meu alcance é que nunca lhe dei atenção?

As respostas vieram quando em uma festa, pela primeira vez, viu Salomão aos beijos com uma garota. Os olhos encheram-se de lágrimas, e o banheiro foi o destino. Saiu de lá decidida “afogar” as suas mágoas. Tomou “todas” na festa. Muito bêbada, foi levada embora por um grupo de rapazes que aproveitaram o seu estado, enfileiraram-se e transaram com Alice.

Essa história da transa com vários rapazes espalhou-se pela cidade. Foi a fofoca pertinente nos bate-papos no decorrer de várias semanas. Rotulada como as profissionais do sexo, envergonhada, recolheu-se em casa. Suas “amigas” distanciaram-se. E o apoio nesta hora difícil veio de quem ela nem imaginava: Salomão.

Logo que lhe contaram a história da Alice, ele não hesitou, e foi procurá-la. Ela pensou em um primeiro momento em não recebê-lo, pois ainda emocionalmente abalada, não sabia como reagiria ao ver o causador (assim o julgava) de todo o seu sofrimento. Aconselhada pela mãe, resolveu conversar com ele. Quando novamente se olharam, uma estranha sensação de segurança foi sentida por Alice.

O sofrível bate-papo que se desenhara não aconteceu, pelo contrário, um animado e gostoso conversar transcorreu na tarde daquele sábado. A adormecida intimidade foi despertada, bem como a paixão de Salomão por Alice, que desta vez foi correspondida. Começaram a namorar.

O namoro estava emplacando quando uma notícia os pegou de surpresa: Alice estava grávida. Passado “o susto”, resolveram morar juntos. Meses depois, nasceu Julia.

Salomão dedicou-se com empolgação nos anos seguintes a cuidar da filha. Estava sempre preocupado com detalhes, nunca lhe deixava faltar nada. E como um pai “coruja” emocionou-se com o primeiro engatinhar, com os primeiros passos, com a primeira “comida de sal”, mas o ápice aconteceu quando ela chamou-o de “pai” pela primeira vez.

O amor de Salomão pela filha era algo notório, muitas vezes comentado pela própria família. Amor esse que foi interrompido em uma chuvosa noite de sexta-feira, quando Salomão saíra de carro em direção a uma farmácia para comprar um remédio para Júlia, que estava com febre. No trajeto, um cachorro atravessou em frente ao seu carro, e ao tentar desviar, chocou-se fortemente em uma árvore. Salomão morreu na hora.

Anos de luto e tristeza apoderaram-se de Alice. Entretanto, em certa tarde, junto à cunhada Flávia, resolveram recordar de Salomão olhando um álbum de fotografias. Folheavam o álbum enquanto falavam do seu carinho ao tratar as pessoas, da sua alegria, e do seu amor por Alice e pela filha Julia. Ao falar sobre Julia, Flávia decide fazer uma revelação:
– Alice. Acho que está na hora de você saber algo.
– O que foi Flávia? Fale logo.
– É que quando o Salomão era novo, ele fez.
– Fez o quê?
– Nem me lembro o motivo direito, mas ele fez uma série de exames.
– E?
– E... E... E descobriu que ele tinha um problema de infertilidade.
– Como é que é? O que você está me falando?
-Isso mesmo que você escutou Alice. Ele era infértil. E nunca poderia ser pai.


Nota do Editor: Rodrigo Ramazzini é cronista.
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