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Semana passada publiquei em uma crônica intitulada "Menos vereadores mais...", uma foto em que pousavam para a posteridade 12 políticos da mais fina flor do nosso mundo legislativo e executivo. Hoje dou início a uma série de capítulos de uma obra escrita pelo primeiro e mais insigne homem que veio a se tornar mundialmente conhecido, portanto homem público, por ter projetado nossa santa terrinha. Hans Staden. Se não passou para a história como herói, marcou sua passagem por Ubatuba as custas do medo de ser jantado e de ter redigido um livro que, segundo Monteiro Lobato, deveria fazer parte do currículo escolar, dado as importantíssimas informações que registrou dos primeiros anos de nossa história. A obra data de 1556 e recebeu o extenso título de: "A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens, encontrados no Novo Mundo, a América". Publicaremos semanalmente os capítulos mais importantes dessa clássica obra, creditando ao sítio do jornalista Franklin Martins as informações aqui editadas. CAPÍTULO 4 Como os Tupinambá, de quem fui prisioneiro, constroem suas moradias. Os Tupinambá moram em frente à serra já mencionada, na beira do mar; mas o seu território ainda se estende por cerca de 60 milhas por trás dela. Residem na margem do Paraíba, um rio que vem das montanhas e deságua no mar, e ocupam uma faixa de aproximadamente 28 milhas de extensão na costa. Os inimigos são uma ameaça por todos os lados. Ao norte, seu território faz fronteira com a dos hostis Guaiataca; os inimigos no sul são os Tupiniquim, e, na direção do interior, os Carajá. Os Guaiana da serra vivem nas proximidades dos Tupinambá, que são perseguidos terrivelmente por uma tribo fixada entre eles e os Guaiana, a dos Maracaia. Todas as tribos mencionadas estão permanentemente em guerra entre si e todas comem os inimigos aprisionados. Os Tupinambá gostam de fazer suas cabanas próximas a locais providos de água e lenha, assim como peixes e caça. Quando se esgotam os recursos do território escolhido, eles estabelecem suas moradias em outro local. Sendo preciso erguer cabanas, cada chefe reúne um grupo de aproximadamente 40 homens e mulheres, ou tantos quantos estiverem disponíveis. Esse grupo costuma ser constituído por amigos e parentes. Então constroem uma cabana que - dependendo do tamanho do grupo - chega a ter 14 pés de largura e até 150 pés de comprimento. A cabana mede cerca de duas braças de altura, sendo arredondada em cima como a abóbada de uma adega. Cobrem-na espessamente com folhas de palmeira, para proteger da chuva o seu interior. Ninguém tem um quarto separado na cabana, que por dentro consiste num único cômodo enorme, onde cada casal, homem e mulher, possui um espaço com cerca de 12 pés de comprimento em um dos lados, de frente para um outro casal que possui seu espaço no outro lado. Assim as cabanas são preenchidas, cada família tendo sua fogueira própria. O chefe é dono do espaço central. Normalmente a cabana tem três entradas pequenas, uma de cada lado e uma no meio, tão baixas que é preciso curvar-se para passar. É raro uma aldeia contar com mais de sete cabanas, entre as quais deixam um espaço livre. Onde matam seus inimigos aprisionados. As aldeias costumam ser protegidas do seguinte modo: em torno das cabanas ergue-se uma cerca feita com troncos cortados de palmeiras, com mais ou menos uma braça e meia de altura e tão grossa que nenhuma flecha possa penetrá-la. Há nela pequenos buracos pelos quais atiram suas flechas. Em volta dessa cerca erguem ainda uma outra, feita com varas longas e grossas, presas não próximas umas às outras, restando no meio uma separação que não permite a passagem de um homem. Em algumas tribos, é costume espetar as cabeças dos inimigos comidos em estacas, na entrada da aldeia.
Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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