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COLUNISTA
Herbert Marques
10/04/2004 - 13h15
Memórias de Hans Staden - II
 
 

Como pode ser visto até agora, nosso herói continuou seu relato de forma emocionante, dando mesmo impressão de que assistimos o dia-a-dia daquele povo selvagem como se fosse um filme documentário. Contudo, como estamos publicando tão somente a segunda parte do seu livro, esclarecemos que ele quando por aqui andou, o cacique dos tupinambá era o nosso conhecido Cunhambebe. Aquele que o arquiteto Renato Nunes, em suas insones noites de verão anda batendo papo com ele. História de arrepiar, que um dia deverá contar para vocês.

Outro cronista gozador é o Eduardo Souza, aliás, um dos criadores desta revista. Anda cutucando o relacionamento gastronômico dos tupinambá com o nosso herói, em franca alusão ao mundo político do momento (quem come quem). Contudo a fase gastronômica fica reservada para quando transcrevermos o capítulo "Capítulo 25 - Por que eles comem seus inimigos". Aguardem.

Capítulo 8
Qual é a aparência das pessoas?

Trata-se de um povo em que homens e mulheres são tão belos, no corpo e na aparência, como aqui em nossa terra; só que eles são bronzeados pelo sol, visto andarem todos nus - tanto os jovens quanto os velhos -, sem nunca cobrirem as partes vergonhosas. Alteram suas feições por meio de pinturas e também não possuem nenhuma barba, já que as arrancam com a raiz assim que começam a crescer. Eles perfuram seus lábios e orelhas e põem pedras pelos furos: é este o seu ornamento. Além disso, enfeitam-se com penas.

Capítulo 9
O que eles usam para capinar e cortar nos territórios e que não trocam por machados, facas e tesouras com os cristãos

Antigamente, antes da vinda das naus comerciantes para essa terra, os selvagens utilizavam uma pedra preta azulada, como ainda hoje fazem nos locais que não são alcançados pelas embarcações. Pegam pedras com o formato de cunhas e afiam a aresta mais longa. Tais cunhas têm mais ou menos um palmo de comprimento, a grossura de dois dedos e são largas como a mão. Algumas maiores, outras menores. Depois eles apanham uma vara fina e vergam na parte superior, ao redor da cunha, amarrando-a com uma fibra.

As cunhas de ferro, conseguidas em alguns lugares por meio de trocas com os cristãos, têm a mesma forma. Só o cabo é feito por eles de uma maneira diferente: perfuram a madeira e encaixam a cunha no buraco. É feito assim o machado com o qual cortam a lenha.

Também pegam dentes de porcos do mato, amolam no meio até ficarem bem afiados e os amarram entre dois tocos. Com esse instrumento é que eles aparam suas flechas e seus arcos, deixando-os redondos, como se tivessem sido torneados. Além disso, usam os dentes de um animal chamado paca, afiados na frente. Quando têm alguma doença do sangue, arranham o local dolorido até sangrar. Essa é a maneira deles de fazer uma sangria.

Capítulo 10
O que selvagens comem em lugar do pão, como chamam os seus frutos, como eles os plantam e como os preparam

Nos lugares em que pretendem fazer plantações, os selvagens derrubam as árvores e deixam-nas secando cerca de três meses. Depois ateiam fogo, queimando-as totalmente. Entre os tocos das árvores, então, plantam a raiz que lhes serve como alimento. Ela se chama mandioca, um arbusto que chega mais ou menos a uma braça de altura e forma três raízes. Quando querem colher, arrancam os arbustos e amassam as raízes, depois tiram ramos da planta e os enterram mais uma vez. Esses ramos dão origem a novas raízes, sendo que em três meses elas estão grandes o bastante para outra colheita. As raízes são preparadas de três maneiras.

Primeira: trituram as raízes sobre uma pedra, obtendo pequenas migalhas. Estas são espremidas com um assim chamado tipiti, que é feito da casca da palmeira, para tirar o suco. Assim, a massa fica seca, depois é passada por uma peneira, produzindo uma farinha que serve para assar bolos bem finos. O pote em que eles secam e assam sua farinha é feito de barro e tem a forma de uma bacia.

Segunda maneira: apanham as raízes frescas e as colocam na água, deixando que fermentem, depois as secam no fogo. Essas raízes secas chamam-se carima e são conservadas por muito tempo. Para o uso, a carima é socada em um pilão de madeira, produzindo com isso uma farinha branca semelhante à nossa farinha de trigo. Dela fazem bolos chamados beiju.

Terceira: pegam a mandioca apodrecida, mas não a secam, e sim misturam-na com mandioca seca e verde. Torrando o produto, fazem dele uma farinha que se conserva por um ano inteiro. É igualmente boa para comer e chama-se uiatam.

Eles também preparam peixe e carne de maneira semelhante, para fazer farinha, assando o peixe ou a carne na fumaça, sobre o fogo, deixando-os completamente ressecados. Depois despedaçam a carne seca e torram-na mais uma vez sobre o fogo nos assim chamados inhepoan, potes de barro queimados justamente para isso. Por fim, o alimento torrado é moído em um pilão e peneirado até ficar bem fino, resultando disso uma farinha duradoura (e entre eles não se usa salgar o peixe e a carne). Come-se essa farinha junto com farinha de mandioca, e ela é bem gostosa.


Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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