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A partir da Revolução Francesa os Estados foram estimulados a desatrelarem-se da Igreja, o que veio acontecer aqui a partir da Proclamação da República em 1889, com edição da nova Constituição que reconhecia o Brasil como uma nação laica. Laico, para Houaiss é aquele que não pertence ao clero, nem a uma origem religiosa, aquele que é independente em face do clero e da Igreja, e, em sentido mais amplo, de toda confissão religiosa. A França nos deu exemplo muito recente quando proibiu os jovens em idade escolar, de freqüentar os estabelecimentos públicos com vestes que caracterizam os adeptos da religião de Maomé. Esta medida provocou sérias controvérsias em todo o mundo mas não modificou a medida tomada pelos dirigentes da nação que fez nascer a separação do Estado da Igreja. Estão certos eles. Cabe ao Estado dirigir seu povo dando-lhe todos os recursos que possam permitir ao homem uma vida livre, onde a dignidade, a educação a saúde e todos os demais recursos que a vida permite, inclusive o direito a profissão de sua fé, possam ficar a disposição de seu povo sem cobrança alguma que não seja a ordem para o exercício e aplicação desses bens e os tributos devidos. Cabe a Igreja dar o conforto espiritual a seus seguidores, sem nenhuma interferência nas funções precípuas do Estado. Esta é a verdadeira democracia. A Igreja Católica nunca aceitou ficar fora do Estado, talvez pelo vício de tantos séculos, mas foi engolindo aos poucos, principalmente na Europa onde dividia seu poderio cristão com outras seitas da mesma origem. Nas Américas, principalmente a do Sul, a Igreja ainda faz suas incursões, principalmente nos países mais subdesenvolvidos. Por outro lado cabe aqui uma anotação importante. A Igreja Católica deu espaço para outras igrejas de sua mesma origem, porém pertencentes a várias facções tidas como pentecostais e neo-pentecostais, formando um grupo de dessidentes, maioria das vezes de procedimento fundamentalista. Esses, aproveitando do engajamento constante de fiéis vindos do catolicismo puro, estão ingressando na política pela porta certa, a eleição, ocupando lenta e paulatinamente postos de grande importância na administração pública, sempre, como não poderia deixar de ser, como fanáticos ou simplesmente oportunistas, para tirar proveito para os pares de sua fé ou seu bolso. O religioso na política está se tornando o maior dos entraves na evolução de uma coletividade. Sua visão míope para as coisas do mundo não permitem admitir nada mais que seus princípios bíblicos, interpretados por pastores incultos, ou oportunistas, com graves conseqüências para toda a humanidade. Nos Estados Unidos o presidente reeleito, defensor nos princípios morais defendidos pelo Cristianismo fundamentalista, está a impedir o desenvolvimento da ciência e até mesmo da sociedade, ao impedir a utilização de células tronco, a união legal dos homossexuais etc. Na nossa corte maior, decisão que revogou liminar concedida para aborto eugênico, segundo a imprensa nacional teve um dos votos redigidos por um dos bispos da Igreja Católica. No Estado do Rio de Janeiro, decisão da Governadora passa a obrigar aulas de religião no ensino básico e alimentação do ensino da teoria do criacionismo, sabidamente obsoleta para toda a humanidade civilizada. Corre notícia a boca grande, que o governo eleito em nosso município está sofrendo pressão da Igreja que contribuiu para sua eleição no sentido de colocar nos mais variados cargos de confiança, seus irmãos de fé independentemente da qualificação de cada um. Se isso for verdade estamos começando mal.
Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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