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COLUNISTA
Julinho Mendes
10/08/2010 - 11h07
Joaquim Firme e a ponta das Toninhas
 
 
JM 

20/05/2002 - Tanto no canto da praia, na costeira ou no largo, aquele lugar nunca negou peixe. Era um promontório sagrado. No canto da praia, nas noites frias de junho e julho, de picaré ou arrastão, ali nunca negava: tainha, pampo, sernambiguara, xarel, roncador. Na costeira: a garoupa, o sargo, a piragica, a salema... eram peixes fartos. No largo: peixes como cação, espada, bagre, corvina, anchova... nunca os tresmalhos, ou pescaria de canoa voltavam sem esses peixes.

A ponta das Toninhas é uma ponta direcionada ao sol nascente. Do lado da praia (lado norte), nos pesqueiros da “pedra rachada” e “pedra da mesa” se avistam os contrafortes da Serra do Mar. No lado sul a visão se faz à ilha Anchieta e aquele mundaréu de mar sem fim.

A lembrança daquele lugar é muito forte e marcante: aquela esplendorosa mangueira, existente no meio da rua, ainda hoje está lá; infelizmente dá seus últimos suspiros (*).

Das pessoas, lembro-me do Seu Cristóvão que mantinha ali um pequeno barzinho para atender turistas e moradores. Lembro-me dos dois irmãos Milton (**) e Rubens, esses ainda, graças a Deus, fortes e rijos, caiçaras pescadores que tinham ali seus ranchinhos de canoa e apetrechos de pesca.

Naquele canto tinha uma touceira de cana do reino, uma planta parecida com o ubá, uma espécie de cana silvestre parecida com a taquara. Era dali que eu atendia as encomendas de meu tio-avô Rodolfo Ignácio Pereira, para levar umas canas da índia de vez, para ele fabricar seus pios de inhambus.

Dava-se início ali os caminho que levavam ao batedor (pesqueiro do tio BIP), às prainhas de Fora e do Godoy, saindo na praia da Enseada e o caminho que conduzia à casa do Seu Joaquim Firme. Esse caminho tinha uma particularidade: em determinado lugar sentia-se aquele cheirinho desagradável; não era uma esporádica vez, e sim todas as vezes que ali passávamos; era um improvisado lugar de se fazer a mais simples necessidade fisiológica do homem, porém, o que não sabíamos era que aquele lugar tinha um vaso sanitário muito curioso: era um vão de pedra que se adaptava perfeitamente ao conforto de alguns moradores e pescadores do local. Descobrimos esse detalhe porque certa vez pegamos um homem agachado, fazendo uso do confortável trono. Foi um fato!

A casinha de Seu Joaquim era simples, mas confortável, metade pau-a-pique, metade de tijolos. Tinha ali uma bica d’água, que vinha de uma nascente existente lá no alto do morro, no caminho que dava acesso ao batedor. Daquela bica d’água formavam-se poços onde viviam camarões de água doce e pitus que serviam de iscas na pescaria de miras e badejos de Seu Joaquim.

Naquele lugar Seu Joaquim se criou, casou-se e criou seus filhos.

Quando o conheci já tinhas seus setenta e tantos anos. Era baixo, de cor branca, mas de pele morena queimada pelo sol, devido o exercício da pesca e da lavoura; usava um chapeuzinho de palha, às vezes um bonezinho; andava curvo e de cabeça erguida; era magro e incrivelmente ágil quando andava na costeira. Da pedra da mesa, certa vez, eu e papai observamos ele na outra ponta da costeira envergar sua vara, lutando contra um badejo que lhe deu trabalho; logicamente que não perdeu o peixe, era um badejão de uns cinco quilos.

Tinha ele uma criação de galinhas num galinheiro que fazia fundo para a costeira, junto ao mar, justamente onde desembocava aquele córrego de águas cristalinas. Era curioso ver todas aquelas galinhas rodeadas com seus pintinhos, todos de penugem prateada. Aquilo nos intrigava: pintinhos de penugem prateada? O que estaria fazendo Seu Joaquim para que seus pintinhos ficassem prateados? Uma outra curiosidade era que não se via, no galinheiro e nem solto no quintal, qualquer espécie de galo. Como que aquelas galinhas procriavam se não existia um galo para acasalar e cruzar com as galinhas? Isso aí nos deixou com a pulga atrás da orelha! Fomos querer saber e desvendar o mistério com o próprio, mas por sua vez, Joaquim não abriu mão do mistério e de forma alguma revelou o que fazia para que suas galinhas botassem ovos de prata e chocassem pintinhos prateados... Um dia, porém, a nossa pescaria se fez após o anoitecer; tínhamos entrado pelo batedor e voltamos pela costeira, passando justamente na costeira que fazia fundo ao galinheiro de Seu Joaquim; ali deparamos com um fato extremamente curioso: encontramos trinta e oito galinhas amarradas, uma junto à outra, todas elas com a bunda dentro da água do mar. O mar estava calmo e liso feito espelho; as galinhas estavam ali naquela posição parecendo esperar por alguma coisa. Ficamos observando... De repente começou um marulho na tona d’água; deu para perceber, ajudado pelo clarão do luar, que era um cardume grande de peixes; esses foram vindo, foram vindo e se achegaram junto onde estavam as galinhas com a bunda dentro d’água. Não deu para perceber que espécie de peixe era, apenas deu para ver que eram peixes prateados e largos. Houve um cacarejo eufórico das galinhas. O cachorro lá na casa de Seu Joaquim se pôs a latir, juntamente com um peru que grugulejava. Um instante se fez silêncio e em seguida um cacarejo baixo e suave começou entre as galinhas. Eram cacarejos de amor, sensual, delicado e gostoso de se ouvir; parecia que as galinhas falavam:

- Ai que gostoso (tesão)!

Aquilo nos intrigou ainda mais. Pegamos a lanterna e averiguamos os fatos, e foi aí que descobrimos o porquê das galinhas estarem com a bunda dentro da água do mar, o porquê dos ovos serem de prata, o porquê dos pintinhos serem de penugens prateadas e principalmente o porquê de não existir galo no quintal de Seu Joaquim. A luz da lanterna nos revelou tudo isso. Era noite de acasalamento e quem transava com as galinhas eram peixes-galo. Acreditem se quiser!!! Em cima de cada galinha tinha um peixe-galo, e o cardume de peixes-galo era tão grande que atrás de cada galinha tinha uma fila de peixes na espera.

Não demorou chegou Seu Joaquim bravo da vida, dando a maior bronca em cima de nós. Não teve jeito, descobrimos o segredo de Seu Joaquim!

Aliás, foram dois segredos que descobrimos de seu Joaquim: o vão na pedra e as galinhas de ovos de prata com seus pintinhos prateados, filhos de peixes-galo, que, diga-se de passagem, galo prata daqueles que quando gruda num anzol tem que jogar milho dentro da canoa ou em cima da costeira, porque senão o bicho não sai da água nem com reza brava.

Pois éééé! A ponta das Toninhas, assim como outras pontas, outras praias e outras regiões caiçaras, também foram alvo da especulação imobiliária, onde através do poder do dinheiro destruíram o habitat, a vida tranqüila e o meio de subsistência do povo caiçara, que hoje estão encostados em favelas, em pés de morros, muitos vivendo de aluguel e outros vivendo de favores; enquanto que seus lugares de nascença hoje ostentam mansões de tubarões que muito raramente desfrutam do lugar, proibindo ainda, com cercados e cães ferozes, a entrada de filhos caiçaras nas costeiras de pescas que são áreas de marinha.

Fica aqui a lembrança do tempo da cana do reino e da garoupa santomé; a saudade de Seu Cristóvão e de Seu Joaquim Firme que fizeram parte da história e vivência dessa nossa querida Ubatuba.

(*) A jaqueira foi retirada em 2004.

(**) Seu Milton faleceu em 2005.

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