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Destes três capítulos que hoje transcrevemos, o mais interessante e mais didático é o "Capítulo 12 - Qual o governo e autoridade que eles têm e o que entendem por direito e ordem." Vejamos: não tinham nenhum direito estabelecido, muito menos governo próprio. Nós temos um montão de direitos estabelecidos e não obedecemos nenhum, bem como, governo próprio vocacionado para governar tão somente para si e seus asseclas. Convenhamos que essa lição bem que nossos homens públicos poderiam ter aprendido com os ancestrais tupinambá. Pelo menos não precisariam devorar seus inimigos a todo momento, como se a antropofagia fosse um ato de bem conviver para melhor administrar a res publica. Pior de tudo, antropofagia com tapinha nas costas ou até mesmo fotos onde sorridentes se agrupam como se fossem todos membros de uma mesma caterva. Capítulo 11 Como eles cozinham seus alimentos Entre os povos selvagens há muitas tribos que não comem sal. No território daqueles de quem fui prisioneiro, encontram-se alguns que conheceram o sal a partir do comércio com os franceses. Porém eles me contaram que a tribo dos Carajá, cujo território fica no interior, afastado do mar, e faz fronteira com o deles, retira sal da palmeira para comer. Mas afirmaram que quem se habitua a comer muito sal não tem vida longa. Eu mesmo vi a maneira como retiram o sal e ajudei-os nisso. Derrubam uma palmeira grossa e cortam-na em pequenas lascas. Depois, erguem uma armação com madeira seca, colocam as lascas nela e queimam junto com a madeira, reduzindo-as a um pó cinza. Esse pó é cozido, dando origem a uma barrela da qual, depois de fervida, separa-se algo que parece sal. Primeiro achei que era salitre e experimentei no fogo, mas não era. É cinzento e tem gosto de sal. No entanto, a maioria dos selvagens não come sal nenhum. Ao cozinharem alguma coisa, seja peixe ou carne, na maior parte das vezes acrescentam pimenta verde. Quando a comida está quase pronta, retiram-na do caldo e fazem uma papa fina que se chama mingau e é bebida em potes feitos de cabaças. Querendo preparar uma refeição com peixe ou carne que fique conservada por algum tempo, põem a carne em pequenas varas de madeira, localizadas mais ou menos a quatro palmos acima do fogo forte, onde vão assando e defumando a carne até ela ficar totalmente seca. Quando querem comê-la, cozinham-na novamente. Este alimento chama-se moquém. Capítulo 12 Qual o governo e a autoridade que eles têm e o que entendem por direito e ordem Eles não têm nenhum direito estabelecido e também nenhum governo próprio. Cada cabana possui um chefe que é, por assim dizer, um rei. Todos os chefes são da mesma linhagem, tendo poderes iguais de mando e de governo - independente de como se queira chamá-los. Se um deles destacou-se especialmente por seus feitos guerreiros, este, quando os selvagens vão a caminho da guerra, é mais obedecido do que os outros, como no caso do já mencionado chefe Cunhambebe. Não ouvi falar de nenhum privilégio especial entre eles, a não ser a obediência dos mais novos aos mais velhos, conforme seu costume. Quando um deles mata o outro, com um golpe ou uma flechada, os parentes do morto tomam providências para vingá-lo. Mas isso acontece raramente. Todos na cabana obedecem ao chefe, fazendo aquilo que ele ordena de boa vontade, sem constrangimento e sem temor. Capítulo 13 Como eles queimam os potes e panelas que utilizam Os potes que eles utilizam são produzidos pelas mulheres da seguinte maneira: pegam o barro e amassam, moldando a partir dele os potes desejados; depois, deixam secar por algum tempo e fazem pinturas artísticas. Se os potes precisam ser queimados, apóiam-nos em pedras, botam muita cortiça seca em torno e acendem o fogo. É assim que os potes são queimados, ardendo como ferro quente.
Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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