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Um dia desses um renomado jurista da qual privo de sua amizade, mostrou-me uma sentença em que o juiz, educadamente, acusa-o de soberba pela forma como se expressava. Nas suas razões da apelação, meu amigo alertou o magistrado prolator da sentença recorrida que além do pecado da soberba, era useiro e vezeiro nos pecados da avareza, gula, inveja, ira, luxúria, e preguiça. Beleza de resposta, principalmente para quem quis mexer um bruta bicho com a vara curta. Se explicou ou não a razão da prática desses pecados todos sem exclusão, tomo a liberdade de explicar, pois confesso que também os pratico, sem exceção. Sou avaro quando acho por bem ser. Confesso ser o pecado que menos caio em tentação, praticando-o muito raramente, quando o dinheiro está curto, curtíssimo, e sou obrigado a fazer minhas economias avessas as normas cristãs de dividir tudo que é meu. É difícil dividir quando a parte sua é pequena. Mas muito mais difícil ainda é dividir aquilo que muito lhe custou ganhar. Por exemplo: uma bela mulher, um carro do ano, um John Walker azul. Preto eu tenho em casa e até divido. Gula, essa não. Peco a vontade, sem a menor restrição e mais, sem nenhum sentimento de culpa. Nunca recusei um churrasco, muito menos um filet ao pouvre, um roeti de salmão ou simplesmente pequenos brochetes. Sem essa de comida simplesinha, feijão, arroz e bife. Não recuso, mas todo dia enche. Inveja é coisa de gente grande. Para as medidas de antanho, e faço parte deles, não posso negar a grande inveja que sinto em não poder acompanhar os jovens de dezoito anos e aprontar com eles tudo que aprontei naquela idade. Tenho enorme inveja do Dalai Lama, aquele guru indiano que prega amor, paz, e trabalhar que é bom, nem pensar. Só pregar. Prega em Nova York, prega em Paris, até no Rio de Janeiro, com bala perdida e tudo, veio pregar. Que inveja meu Deus. Juro que queria ser ele, só pregar. Ira nunca me faltou, principalmente quando leio no jornal um texto de um petista pregando a igualdade, a distribuição de renda, fome zero. Pra falar a verdade, acho que a ira nem poderia ser considerado um dos pecados capitais pois é impossível qualquer cidadão do mundo viver vinte e quatro horas sem tê-la. Vocês acompanharam aquela estória da fome e do obeso do Lula e o IBGE? É ou não um motivo de ira o questionamento provocado pelo nosso presidente? Luxúria, ah! a luxúria. Grande pecado. Essa palavra vem lá do latim e sempre quis dizer a mesma coisa. Incontinência, lascívia, sensualidade. Saiba você que pratica a luxúria quando anda pelado dentro de casa, quando olha a fotografia da Luanda Piovani sem calcinha, ou da namorada do Itamar Franco (quando era Presidente) subindo a escada do Sambodromo sem a mesma peça do vestuário. Pratica luxúria quem despe com o olhar a mulher do vizinho, ou arregala os olhos em uma sena mais picante da novela das nove. Não venha com graça. Praticas a luxúria tanto quanto eu, a todo momento. Preguiça é nossa companheira dos fins de semana. É aquela que chega logo na sexta-feira, aumentando sua intensidade no domingo, depois do clássico churrasco e do meio balde de caipirinha. Conclui-se de tudo isso, no dizer do meu amigo agredido pelo magistrado e mencionado acima, que os Pecados Capitais, se inventados por Deus, não foi muito feliz quando os criou. Põe as coisas boas na nossa frente e depois quer rotular como pecado quando praticamos, olhamos, simplesmente sentimos. Certamente mais um erro do Criador.
Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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