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COLUNISTA
Herbert Marques
27/04/2004 - 12h09
Memórias de Hans Staden - IV
 
 

Nossos ancestrais, segundo nosso narrador, deixaram uma boa herança com relação a encher a cara. Hoje trocamos de bebidas, mas os hábitos quase são os mesmos. Inclusive o famoso arrastão. Aquela história de beber tudo que tem numa casa e ir para a outra continuar a bebedeira. O mesmo diga-se com relação às pinturas, anéis e outros enfeites de metal, hoje na forma das ridículas tatuagens e adornos estampados e encravados muita das vezes por todo o corpo. Se era bonito para os índios, por que não entre nós? Contudo, ridículos lá, ridículos cá. Coisa de índio.

Os demais detalhes, embora muito interessantes, não há muito que comentar. Vejam-nos.

Capítulo14
Sobre seus costumes para beber e como preparam suas beberagens encantadas

As mulheres fazem as bebidas. Elas pegam raízes de mandioca e fervem grandes panelas cheias. Quando as raízes estão bastante cozidas, são retiradas e despejadas em outros potes, para esfriar um pouco. Depois disso, as mulheres jovens sentam-se, mastigam a mandioca e devolvem o que mastigaram para potes especiais.

Quando todas as raízes cozidas já estão mastigadas, aquilo tudo volta para uma panela cheia d’água, que é misturada com a papa das raízes. O produto todo é aquecido mais uma vez.

Eles possuem potes especiais, que são enterrados no solo pela metade e têm o mesmo propósito dos barris usados aqui para vinho e cerveja. Despejam todo o líquido nesses potes e os fecham bem. A beberagem começa a fermentar por si mesma, tornando-se forte. Permanece dois dias fechada, depois bebem dela e embriagam-se. Trata-se de uma bebida grossa e nutritiva.

Cada cabana prepara sua própria bebida. Devendo-se celebrar uma festa na aldeia - normalmente uma vez por mês -, todos se encaminham para uma primeira cabana e ali bebem toda a bebida. Seguem assim em círculo, até que todas as bebidas de todas as cabanas tenham acabado.

Sentam-se em volta das panelas, alguns sobre a lenha, outros no chão. As mulheres servem as bebidas, como é o costume entre eles. Alguns se levantam, cantando e dançando em torno dos potes. Aliviam-se de suas águas no mesmo lugar em que bebem.

O banquete dura a noite inteira. Eles dançam entre as fogueiras, gritam e sopram seus instrumentos. Quando ficam bêbados, fazem uma gritaria medonha. É raro observar alguma briga nesses momentos. São muito prestativos entre si, portanto, quando alguém tem mais comida do que o outro dá um pouco a este.

Capítulo15
Como os homens se enfeitam e se pintam e que tipo de nome têm

Eles raspam a cabeça, deixando apenas uma coroa de cabelo, semelhante à de um monge. Perguntei-lhes diversas vezes como é que tinham chegado a esse tipo de cabelo e eles contaram que seus antepassados tinham-no visto em um homem de nome Meire Humane, que realizara muitas maravilhas entre eles. Era considerado um profeta ou apóstolo.

Continuei a perguntar, querendo saber o que eles usavam para cortar os cabelos antes da vinda das naus com tesouras. Esclareceram que isso era feito com duas cunhas de pedra, batendo no cabelo uma por cima da outra, sendo a parte do meio cortada com auxílio de uma lasca feita de cristal. Essa raspadeira é muito empregada por eles para cortar. Além disso, fazem um enfeite de penas vermelhas chamado acangatara, que é amarrado em volta da cabeça.

No lábio inferior, eles têm um furo grande, desde a juventude. Quando são ainda jovens, perfuram o lábio com uma ponta de chifre de cervo, colocam no furo uma pedrinha ou pedaços de madeira e untam-no com um de seus ungüentos. O pequeno furo permanece aberto assim. Depois, quando ficam maiores ou capazes de feitos de bravura, a abertura é aumentada e o jovem coloca através dela uma grande pedra verde. A parte superior da pedra, que tem uma forma especial, mais estreita, fica voltada para dentro e a parte grossa para fora. Seu peso faz o lábio inferior pender para baixo o tempo todo. Também usam duas pedras pequenas atravessadas nas bochechas, nos dois lados da boca.

Alguns, em vez de pedras, usam cristais longos e delgados. Um outro enfeite é produzido a partir do casulo de grandes caracóis marinhos, os matapus. Chama-se bojeci e tem a forma de uma meia-lua, branco como a neve, sendo usado em volta do pescoço.

Ainda a partir do casulo de caracóis marinhos, fazem disquinhos brancos, mais ou menos da grossura de uma haste de palha, que penduram no pescoço. A feitura desses disquinhos é muito cansativa.

Também se enfeitam com feixes de penas amarradas em torno dos braços e pintam-se de preto. Penas vermelhas e brancas são coladas ao corpo, misturando as cores. A cola para isso é retirada de árvores. Esfregam-se nos pontos que querem emplumar, depois apertam as penas por cima. Costumam pintar um braço de preto e o outro de vermelho, fazendo o mesmo com as pernas e o tronco.

Um outro enfeite é obtido de penas de ema. Trata-se de uma coisa grande e redonda, feita de penas, chamada enduape. Quando vão para a guerra ou fazem uma grande festa, amarram tais enfeites nas costas.

Seus nomes são escolhidos a partir dos animais selvagens. Dão-se muitos nomes, mas com determinadas distinções: no nascimento, um menino recebe um nome que conservará até crescer e mostrar-se um guerreiro valoroso, capaz de matar inimigos. Depois, cada um deles recebe tantos nomes quantos forem os inimigos que tiver matado.


Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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