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Dos três capítulos abaixo transcritos, o primeiro nos chama a atenção quando se refere ao nome que dão à índia casada. Quantos nomes quantos sejam os dos inimigos mortos pelo seu marido. Já pensou o nome de uma mulher que se casasse com um policial da ROTA de São Paulo? Yracema Lulu da Vila Matilde Cheiroso do Canindé Zulu de Prudente Manoel do Pó Lalau da Barra Funda Gabriel Sete Chaves Gugu da Madalena Dagoberto Trinta e Oito. Mais a frente há de se estranhar nosso herói se referir a panos para aparar o filho levado às costas, quando é do conhecimento de todos não conhecerem tecidos de algodão naquela época. Esses e outros deslizes do autor permitem os historiadores contemporâneos afirmar que Hans Staden não primava pela perfeição de seu relato, fantasiando muito o que via, ou inventada. Ainda bem que ele não falou de si mesmo, atendo-se tão somente a relatar o que presumivelmente via. Capítulo 16 Quais são os enfeites das mulheres As mulheres pintam a metade inferior do rosto e todo o resto do corpo do mesmo modo que já foi descrito a respeito dos homens. Todavia, elas deixam os cabelos compridos, como as mulheres de outros lugares. Além disso, não têm nenhum enfeite especial; só nas orelhas é que possuem furos para um tipo de brincos, mais ou menos da grossura de um polegar, produzidos a partir de caracóis marinhos. Desde a infância elas têm apenas um nome, que tiram de pássaros, peixes e frutas. Se forem casadas, recebem tantos nomes quantos forem os inimigos mortos por seus maridos. Quando catam piolhos, elas os comem. Perguntei-lhes muitas vezes por que fazem isso e elas responderam que os piolhos eram seus inimigos e devoravam alguma coisa das suas cabeças, portando queriam vingar-se deles. Entre esses selvagens não há parteiras determinadas. Quando uma mulher deve dar à luz, quem estiver mais perto vem correndo, seja mulher ou homem. Vi mulheres que já estavam passeando novamente no quarto dia após o parto. Carregam seus filhos nas costas, seguros em panos de algodão. Desse modo, levam-nos para o trabalho e as crianças ficam satisfeitas, dormindo, mesmo que a mãe se abaixe e se movimente muito. Capítulo 17 Como as crianças recebem seu primeiro nome A mulher de um dos selvagens que me capturaram dera à luz um filho. Alguns dias depois, o pai estava discutindo na cabana com os vizinhos mais próximos a respeito do nome que devia dar a seu filho, um nome que soasse corajoso e amedrontador. Sugeriram muitos nomes que não o agradaram, então ele disse que pretendia dar ao filho o nome de um dos seus quatro antepassados. Crianças com tais nomes são prósperas e bem sucedidas na captura de escravos, segundo disse, pronunciando em seguida os quatro nomes. O primeiro chamava-se Kirima, o segundo Eiramita, o terceiro Coema, e o nome do quarto eu não guardei. Quando ele disse Coema, pensei que podia ser Cham ou Ham, mas Coema significa ’manhã’ na língua deles. Sugeri que desse ao filho aquele nome, pois certamente pertencia a um de seus antepassados. A criança recebeu um dos quatro nomes mencionados por ele, o que acontece sem batismo ou circuncisão. Capítulo 19 Como eles combinam os casamentos Eles prometem as suas filhas como noivas quando elas ainda são muito novas. Ao chegar a idade propícia para o casamento, cortam-lhes fora os cabelos, fazem determinados talhos nas suas costas e amarram alguns dentes de feras em volta do pescoço. Quando o cabelo volta a crescer e as feridas saram, ainda é possível reconhecer a forma dos cortes, pois eles põem algo na ferida recente que torna preta quando sara. Esses sinais são considerados uma honra. Realizadas tais cerimônias, entregam a moça àquele que deve tê-la como esposa, mas sem festividades. Marido e esposa comportam-se decentemente, fazendo suas coisas em segredo. Também observei como um dos chefes vai passando por todas as cabanas durante a manhã e arranha as pernas das crianças com um dente de peixe. Isso é para fazê-las ficar com medo. Se desobedecerem alguma vez, os pais a ameaçam dizendo que aquele homem vai voltar se elas não forem bem comportadas.
Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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