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Quatro capítulos muito interessantes, visto que suas sutis estórias nos permitem ilações também sutis, contudo bastante próximas da realidade. A primeira, referente ao capítulo em que se reporta às honras dos silvícolas. Mantinham no seu nome o de suas vítimas, como também suas mulheres. No artigo anterior demos um exemplo de como se chamaria a mulher de um deles, no caso de serem casadas com policiais civis de São Paulo. A estória dos maracás também é muito interessante e perfeitamente cabível em uma comparação com nossos homens públicos atuais. O maracá de cada índio seria seu voto. Fala na pessoa de seu pajé, mas o índio é crente que a voz sai dele. O pajé, para nós travestido de prefeito ou até mesmo de vereador não passa de um adivinho estimado por todos, mas nem por isso mentirosos e hábeis na falcatrua. O último capítulo desta série é o único em que nos deu notícias de que nosso relator seria mesmo jantado, ou almoçado, pelos seus aprisionadores. Capítulo 20 Seus haveres Os selvagens não praticam, entre eles, nenhum tipo de comércio e não conhecem nenhum dinheiro. Seus únicos tesouros são penas de pássaros, sendo visto como rico aquele que possui muitas delas. Quem usa uma pedra no lábio inferior também tem muito prestígio. Cada família possui sua própria plantação de mandioca, que lhe basta para viver. Capítulo 21 Qual é a maior das honras para eles O que vale como uma honra entre eles é ter aprisionado e matado muitos inimigos, pois é esse o seu costume. O número de inimigos que um homem matou equivale ao número de nomes que ganha. Aqueles que têm mais nomes são os mais distintos entre eles. Capítulo 22 Sobre as suas cabeças Os selvagens cultivam uma planta de abóbora que tem mais ou menos o tamanho de meia panela e é oca por dentro. Espetam uma vareta através dela, cortam uma abertura semelhante à boca e enchem-na com pedrinhas, de modo que faça barulho. Essa coisa é denominada maracá e eles a chacoalham quando estão dançando e cantando. Cada homem possui sua própria maracá. Entre eles, há alguns homens a que dão o nome de pajé. Trata-se de adivinhos, que são muito estimados por todos, da mesma maneira como aqui. Uma vez por ano eles andam pelas terras da tribo contando que lhes apareceu um espírito vindo de lugares muito distantes. Tal espírito teria dado a eles o poder de fazer com que todas as maracás falem e de lhes emprestar esse seu poder quando quiserem. Basta pedir a eles. Naturalmente, todos desejam que seu chocalho receba o poder e preparam uma grande festa, em que cantam e dançam. Os pajés prevêem o futuro e realizam muitas cerimônias bizarras. Após a festa, o adivinho escolhe uma cabana que precisa ser abandonada em determinado dia. Nenhuma mulher nem criança tem permissão para ficar lá dentro. Eles ordenam que todos os homens venham com suas maracás; depois de pintá-las de vermelho e enfeitá-las com penas, então os chocalhos devem receber o poder de falar. Quando os homens já estão reunidos na cabana, os adivinhos sentam-se lá dentro, na parte mais alta, e fincam suas maracás no chão, ao seu lado. Os outros homens o imitam. Cada um dá presentes aos pajés, como por exemplo arcos e flechas, penas ou brincos, para que sua maracá não seja esquecida. Nessa reunião, o adivinho pega a maracá de cada um em particular e incensa na fumaça de uma erva a que dão o nome de pitim. Depois ele a segura bem perto da boca e diz: "Ne cora - Agora fale e se faça ouvir, se está aí." Em seguida, fala uma palavra tão depressa que não é possível distinguir se é o chocalho ou ele quem está falando. As pessoas acreditam que é o chocalho, mas na realidade é o pajé quem fala. Ele faz assim com todos os outros chocalhos, e cada homem acredita que sua maracá tem grande poder. Por fim, os adivinhos lhes ordenam a partida para a guerra e a captura de muitos prisioneiros, pois os espíritos nas marcas têm apetite de comer carne de escravos. Depois disso, eles vão guerrear. Depois que o pajé transforma todos os chocalhos em divindades, cada homem retoma o seu e passa a chamá-lo de "filho querido", chegando mesmo a fazer uma cabaninha onde o chocalho fica, com sua comida em frente. É para as maracás que pedem tudo de que têm necessidade, do mesmo modo como nós suplicamos ao verdadeiro Deus. Portanto, são esses os deuses deles. Não se preocupam com o Deus verdadeiro, criador do céu e da Terra, visto acreditarem, segundo sua tradição, que o céu e a Terra sempre existiram. Também não sabem nada a respeito do começo do mundo. Todavia, contam que houve certa vez uma grande enchente em que todos os seus antepassados morreram afogados; segundo eles, apenas uns poucos sobreviveram num barco, alguns também em cima de árvores altas. Acredito que se refiram ao Dilúvio. No início, logo que comecei a viver entre eles, ao me contarem sobre as maracás, fiquei pensando que se tratava de uma artimanha do diabo, pois eles asseguravam muitas vezes que os chocalhos podiam falar. Entretanto, ao entrar na cabana onde todos são obrigados a sentar, quando estavam lá os adivinhos que deviam fazer os chocalhos falarem, reconheci a farsa e então saí da cabana pensando comigo: "Que pobre povo ludibriado". Capítulo 23 Como eles tornam as mulheres adivinhas Em seguida, os selvagens vão a uma cabana e incensam com fumaça todas as mulheres lá dentro, uma a uma. Depois, todas elas têm de se agachar, saltar e andar em volta da cabana, até ficarem exaustas e caírem por terra. É quando o adivinho diz: "Vejam, agora ela está morta, mas logo vou revivê-la. Ao voltar a si, ela será capaz de prever coisas futuras". Quando os selvagens partem para a guerra, as mulheres precisam fazer previsões a respeito da expedição. A mulher do meu senhor (do selvagem a quem fui dado de presente, para que ele me matasse) começou a profetizar certa noite, dizendo a seu marido que um espírito vindo de uma terra distante lhe aparecera e queria saber quando eu seria morto. Segundo ela, o espírito também tinha perguntado onde se encontrava o porrete com o qual seria desferido o golpe mortal. A resposta de seu marido foi que não ia demorar muito, pois estava tudo pronto, embora ele achasse que eu não era português e sim francês. Quando a mulher havia terminado sua profecia, perguntei-lhe por que ameaçavam a minha vida daquele modo, visto que eu não era inimigo, e se não temia que meu Deus pudesse lançar uma praga sobre ela. Sua resposta foi que eu não devia mais me preocupar com aquilo, pois tratava-se de espíritos estrangeiros querendo obter informações a meu respeito. Os selvagens têm muitas dessas cerimônias proféticas.
Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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